Todos temos um lugar, uma personalidade e um viver no caminho para a morte.
Quinta-feira, 18 de Março de 2010

 

     Todos, no dia-a-dia, vamos pouco a pouco, sem darmos por isso, cavando a nossa sepultura, às vezes também a de mais alguém ...

     Quando se é poeta da tristeza, da angústia, da amargura, do desespero, do sofrer em geral, isto é, quando se tem alma bastante sensível para tais estados interiores, mais depressa se vai cavando em geral a respectiva sepultura.

     A sepultura vai-se cavando enquanto se vive, até que por fim, ao fechar-se de todo a porta da vida, se fecha também a sepultura, irreversivelmente.

     E, ao caminhar-se para lá, o que entristece, angustia, desespera, atemoriza até, é não se saber o que está para lá deste mar da vida, em que nos vamos afogando, sepultando ...

     Resta  poder ter-se aquele vapor de esperança, a que se chama fé, de haver lá algo que nos compense, ou recompense, do sofrer por cá, absolvendo os merecedores e condenando os imerecedores.

 

 

 

                             

                      Cavo

           a minha sepultura

 

 

Cavo da alma e corpo a terra, dura,

pensamento por enxada, escura,

tristeza a semear, como cultura,

sem choro a regar, já seco em fundura,

 

e o fruto, a sazonar em negrura,

é sem sumo e só sabe a amargura,

e tanto que em mim tal sabor perdura,

qual infinda desértica lonjura,

 

e se amargo é meu viver e sem cura,

perpétua prisão que, subtil, tortura,

ando a cavar a minha sepultura,

 

ante o Demo, negra e córnea figura,

ou a Morte, de negra vestidura.

Valha-me Deus, que aos fracos não descura.

 

 

 

(Poema meu.)

 

 

                                                                   Mírtilo

 

 

                                    

  

publicado por Mírtilo MR às 22:49

Quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2010

 

  

 

MÉRTOLA, antiquíssima e importantíssima cidade de MYRTILIS,

nos tempos da ocupação romana,

tem sido e é, nos tempos actuais,

vila muito linda, muito pictórica e muito poética.

 

 

 

 

                     

                          EU QUERIA ...

 

 

 

Eu queria, Mértola, minha terra,

em poesia que em ti se encerra,

tanta, tanta, que me traz tão transido,

desse pobre tempo tão dolorido

em que fui menino e jovem sonhador,

elevar-te a poético alcandor,

a par do orográfico e histórico,

em sentido real ou metafórico,

 

em poesia, Mértola, salientar-te,

em poética memória eternizar-te,

memória esquecida ou não sabida,

no passado enterrada qual jazida

de pobreza por minério de ouro,

para mim qual teu tão triste tesouro,

eu queria qual teu mineiro ser

de poemas desse tempo de sofrer,

 

para a seus descendentes mostrar

o que pais e avós tiveram de passar,

homens dias sem tostão auferir

à espera de trabalho sem vir,

mulheres sem ter pão que na mesa pôr,

de manhã, ao meio-dia, ao sol-pôr,

mas eu queria, Mértola, também,

porque esse pobre tempo alguma tem,

 

referir certa alegria de então,

mesmo do povo às vezes sem pão,

das pessoas o respeito e a moral,

sem a criminalidade actual,

em que nem pela fome um pobre roubava, 

porque então de ser honrado deixava,

eu queria, Mértola, se pudesse,

se inspiração meu estro enriquecesse,

 

lá na minha infância e adolescência

poetizar-te em sentida transparência

e presencialmente ter-te na alma,

tornando-a de novo humilde e tão calma,

como se minha própria alma fosses,

a repetir-me sonhos mansos, doces,

ficando eu nesse tempo eternamente,

menino e a adolescer inocente.

 

 

 

(Poema meu.)

 

 

                                                                                    Mírtilo

 

 

                                                        

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                       

 

 

                       

 

 

 

 

 

 

                       

 

 

                       

 

                       

 

 

 

                                 

 

 

                       

publicado por Mírtilo MR às 16:12

Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010

 

 

     Alguma vez o Homem conseguirá ser omnipotente, capaz de vencer ou de evitar tão medonhos e tão mortais cataclismos naturais, em que as omnipotentes forças da Natureza se manifestam por vezes, ultimamente com invulgar frequência, certamente com alguma culpa por parte do próprio Homem, devido ao seu desregrado ou desrespeitador comportamento para com a aparentemente transigente mas implacável Natureza?

     No tão recente, tão medonho e tão mortal caso do terremoto do Haiti, o Homem de novo estremeceu, de novo se solidarizou, mas, depois das primeiras e piores impressões, de novo, pouco a pouco, se revela apenas homem, com letra minúscula, isto é, esbanjador e não respeitador da Natureza e mau para o seu próprio semelhante, parecendo não ter consciência disso.

     Quantos vivos presos nos escombros do sismo do Haiti, alguns certamente com consciência e mortal desespero da situação em que se encontram, não haverá ainda à espera de que os salvassem, não havendo no entanto, incompreensivelmente, a necessária quantidade de máquinas escavadoras para o fazer e tendo o governo local já há uma semana decidido o fim das buscas? 

     O Homem, afinal, apesar da sua inteligência e solidariedade, continua a ser  apenas homem ...

 

 

 

                      Os Homens são apenas homens

 

 

De repente,

um imenso monstro cinzento asfixia o Sol,

vence-o

e parece rir como demónio.

O mundo fica escuro,

muito cinzento.

O Diabo semeia pavor

e solta ventos.

Escuro e mais escuro,

a terra é de cinzento sombrio,

as árvores são açoitadas por fúria de monstro,

os animais vão espavoridos

encolher-se nos buracos,

chove,

troveja,

o vento sibila desvairado

como besta enlouquecida,

dos telhados voam telhas

como se arremessadas pelo Diabo,

escuro e mais escuro,

as pessoas interrogam-se,

não sabem bem o que é,

mas sabem que é tragédia gigantesca,

sentem-na,

temem-na,

sua ciência é insignificante para se lhe opor,

encolhem-se,

escondem-se,

sombra,

o sol morreu,

há muitos feridos e mortos,

mas nem se soltam gemidos

para não enraivecer mais o monstro.

Que será dos barcos no mar?

Irão ao fundo,

haverá muitas dores e desesperos,

muitas mortes.

A terra é cada vez mais castigada,

ruge mais a medonha tormenta,

tudo é vergastado,

o chão parece quebrar-se,

e aqui e além rasga-se mesmo,

tombam mais árvores,

é o fim do mundo.

Os animais estão quietos nos buracos,

os homens,

que conquistam o espaço e revolvem a terra,

que exploram os mares,

que estudam e quase domesticam o planeta,

nada podem fazer,

há muito que não rezavam,

agora depuseram a ciência

e rezam,

rezam,

crêem em Deus,

pedem-lhe perdão os mais tementes

e o fim do cataclismo os mais frios,

são fracos os homens,

reconhecem-no,

há muito que o não reconheciam,

prometem

que no pleno regresso à vida só farão o bem,

não quererão de mais,

não serão ambiciosos,

não usarão mal sua ciência,

serão crentes e piedosos.

De repente,

a tempestade começa a rugir menos,

as árvores endireitam-se

como seres simples que foram lançados ao chão,

a tarde já é menos sombria,

clareia o céu e a terra,

o vento agoniza no seu respiro de brisa,

cessou o ribombar da trovoada,

as nuvens secaram as bocarras de chuva,

os animais espreitam à entrada dos buracos,

de olhos mansos,

e os homens sentem-se fortes,

saem de casa,

esquecidos,

vão na rua,

orgulhosos,

entram em classes distintas,

retomam sua luta,

ambição contra a humildade,

riqueza contra a pobreza.

Já são homens outra vez,

são homens,

apenas homens.

 

 

 

(Poema meu.)

 

              

                                                                                       Mírtilo

 

 

      

publicado por Mírtilo MR às 19:08

Quinta-feira, 24 de Dezembro de 2009

 

                            

 

 

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           F E L I Z    N A T A L    E    B O M    A N O     N O V O 

 

 

 

Natal é renascimento, é nova esperança ...

Que o novo ano permita a concretização dos sonhos de paz e amor para toda a Humanidade.

 

 

 

                                                                                 Mírtilo

publicado por Mírtilo MR às 00:32
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Domingo, 06 de Dezembro de 2009

 

     Há quem goste de ser superior aos outros por vaidade ou arrogância, o que pode gerar discriminação, inimizade, conflito, quebrando-se  o estado de paz, amizade ou solidariedade e igualdade de direitos em que se deve viver en conjunto, ou em sociedade.

     Mesmo que alguém se torne superior a outrem, por ser mais inteligente, mais culto, mais bem dotado de algo pela Natureza, ou até mais rico, não deve, no entanto, fazer ostentação desse ou desses predicados, muito menos para rebaixar ou humilhar os outros ou para querer ter mais direitos.

     Embora na vida os mais humildes ou mais fracos devam reclamar sempre, o mais pacificamente possível, direitos iguais aos mais fortes ou mais dotados de algo, para que se implante e permaneça a igualitária estrutura, mesmo assim, em caso de provocação conflituosa, é preferível por vezes a ela não responder, para evitar precisamente o conflito, demonstrando bom-senso moral e de paz.

     Até entre os animais pode acontecer algo semelhante a isto que acontece entre os humanos, que, em última hipótese, são vistos afinal como animais, que também são, de que conservam ainda os instintos básicos, ainda que mais ou menos civilizadamente contidos.

 

 

 

            

 

              

 

          A abelharuca e a tanjasna

 

 

Em Mértola, dantes, na margem da ribeira,

multicolor e ruidosa abelharuca tinha

ninho em buraco, que do ano anterior vinha,

aberto em seca lama de nua barreira,

 

e nas rochas e pedras da margem fronteira

negra e alva tanjasna aninhava em covinha,

muda e tão triste parecendo, coitadinha,

e a abelharuca, de provocante maneira,

 

como entre pessoas acontece e acontecia,

atirava-lhe ser-lhe bem superior,

que a tanjasna insignificante parecia,

 

tão mortiça, sem saber cantar, sem ter cor,

mas a humilde tanjasna nem respondia,

pois todos, achava, podem ter seu valor.

 

 

 

(Poema meu.)

 

 

 

                                                                                                              Mírtilo                    


Quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

 

                                                 

     Tudo na vida muda ou evolui, para bem ou para mal, podendo dizer-se que o mundo é composto de mudança, como poetava Camões, e a Humanidade, aparentemente toda-poderosa, é como que arrastada, parecendo impotente, pela imparável ou fatídica corrente de mudança, quer seja mudança superficial ou profunda, ocasional ou rotineira, no campo científico e tecnológico ou no campo dos comportamentos e dos costumes, isto é, da moral tradicional.

     A moral tradicional, ou os bons costumes, em que se integravam sobretudo o respeito, a solidariedade, a dignidade, a honestidade, ou honradez, sempre foi, ao longo dos tempos, algo que muito contribuiu para manter os humanos em paz, quer cada pessoa consigo própria, quer na sociedade ou aglomerado social em que se vivia. E se alguém, muito esporadicamente, transgredisse essa moral, sadia, coerente, coesa, ainda que por vezes, por parte de uma ou outra pessoa, algo discutível num ou noutro aspecto, adviria em geral para o esporádico transgressor um sentimento misto de culpa e vergonha que encontraria eco no próprio aglomerado social em que se inseria, como que considerando, além de si e da entidade judicial (se fosse caso para isso), tal aglomerado social também seu juiz.

     Hoje, essa moral tradicional, sem a qual a vida em sociedade será um caos, tem sofrido rombos, golpes, digamos que, como tudo, tem sofrido mudanças, não sendo já o que era, já não mantendo tanto os homens em paz, não os fazendo  possuir tanto os sentimentos de respeito, dignidade, honradez, etc. 

     E um dos aspectos tão chocantemente transgredidos, por todo o lado, certamente o mais chocante, é matar alguém, tirar a vida violentamente, de modo selvagem, a um semelhante, com a maior das facilidades, a maior das friezas, aquando de um assalto ou  roubo, ou de uma briga, ou por zanga ou desavença, ou por inveja, ou até por um simples ou repetido conflito conjugal, para já não falar das guerras, igualmente condenáveis. 

     A moral tradicional está, infelizmente, sem sombra de dúvida, em falência, para mal de todos os humanos, sobretudo e mais sensivelmente para quem deseja a paz entre todos os homens.

 

 

 

                                               Homicídio

 

 

Dantes, se alguém a outrem tirava a vida,

havia em geral nas pessoas consternação,

sobretudo em quem com o morto tinha relação,

até a sentia e arrependimento o homicida,

 

pois matar sentia-se trágica acção.

Hoje, assassinar é quase banal investida,

fria, não consternada e não arrependida,

estranhos e amigos menos que dantes sentirão.

 

Mata-se, assassina-se, quase a toda a hora,

na guerra, rua, casa, campo, em todo o lado,

imagens na televisão, sem esperança de melhora.

 

E vai-se à força com isso ficando habituado,

e o homicida já de medo ou vergonha não cora

ao ser preso e ir a tribunal ser julgado.

 

 

 

(Poema meu.)

 

 

 

                                                                                                          Mírtilo                           

 

 

 

 

 

 

        

       


Quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

 

 

     A corrupção está cada vez mais na ordem do dia,  mais e mais casos a aparecer, alguns já antigos, que pareciam estar totalmente bem em segredo, mas pouco a pouco vai-se levantando o véu de alguns desses ignóbeis casos de corrupção, em geral graças ao actual jornalismo de investigação.

     Sobretudo em órgãos ou serviços do Estado ou em  empresas em que o Estado tem interesses, ou entre elementos desses serviços ou dessas empresas, têm ultimamente surgido tantos suspeitos em casos de corrupção que bem poderia dizer-se que o Estado, através do seu Executivo, ou seja, o Governo, deveria estar envergonhado perante o povo, que elege os seus governantes, nomeando estes depois outros líderes, como gestores, administradores, etc., por familiaridade, amizade, coleguismo político, para outros serviços ou empresas em que surgem algumas dessas suspeitas de corrupção.

     A corrupção a alto nível é, por um lado, fruto da promiscuidade entre o poder e o grande capital, própria de regimes do moderno capitalismo liberal, e, por outro lado, a má consciência e a quase impunidade que alguns políticos e líderes empresariais sentem ou julgam poder ter fazem o resto. 

     Sendo a corrupção uma das piores manchas na honestidade do Homem, pervertendo valores de moral e justiça, que devem ser sagrados e impolutos, não se compreende que tamanho labéu, sobretudo a alto nível, isto é, praticada por supostamente tão importantes figuras da Administração Pública ou com ela relacionadas, esteja actualmente a aparecer com alguma frequência, pelo menos sob a forma de suspeitas, e isto não incluindo os casos que porventura possam ainda estar sob o véu do secretismo, ou do desconhecimento, ou da insuspeição. E a corrupção a alto nível mais detestável se torna para o comum cidadão na medida em que é praticada por indivíduos que já são profissional ou funcionalmente tão bem pagos. É a tentação totalmente desonesta de mais e mais dinheiro arranjar, de mais e mais enriquecer ilicitamente.

     É claro que o grande povo, o grande povo pobre e eleitor, há muito que se habituou, infelizmente, mas por força das circunstâncias, a pensar que a corrupção a alto nível ficará sempre ou geralmente impune, devido à argúcia de bons ou dos melhores advogados defensores, que se aproveitam sobretudo de aspectos formais dos processos e de recursos para adiar e tornar a adiar os respectivos andamentos. E, além disso, como os tribunais andam a abarrotar de processos e mais processos, a demora ainda mais se agrava, acabando tantas vezes por prescrever muitos dos processos.

     É lamentável ter de se dizer ou pelo menos de se pensar que temos tantos casos de políticos ou de governantes sobre quem recaem ou recaíram suspeitas de corrupção, algumas muito graves, ainda que não de todo comprovadas.

 

 

 

 

                          Corrupção

 

 

Há órgãos do Estado a eivar-se em corrupção,

antiga ou recente, sofisticada ou não,

ora isolada ora em secreta associação,

ou ignorada ou com oculta permissão.

 

Suspeitas e denúncias em constante explosão

têm forçado muito à investigação,

e há autarcas em tribunal ou na prisão,

agentes policiais na mesma situação,

 

outros funcionários com igual acusação,

mais uma Direcção-Geral sob suspeição.

E se prosseguir isenta a averiguação,

 

mais suspeitos e culpados aparecerão,

não só «peixe» miúdo, também médio e grandão.

Há que extirpar a burocrática podridão.

 

 

 

 

                              (Poema meu.)

 

 

 

                                                                                                                                                                 Mírtilo                                                                                                                                          

 

    


Terça-feira, 27 de Outubro de 2009

    

    

    

     (Peço aos meus virtuais amigos da Blogosfera que me desculpem esta última ausência, mas tive de me afastar por um tempinho, por força das circunstâncias, e que igualmente me desculpem não ter respondido a alguns comentários que dirigiram à minha última postagem no meu blogue. Mesmo assim, vou tentar ainda responder-lhes. Os meus agradecimentos a todos pela atenção e compreensão.)

 

                                               *   *   *    

    

     Cada vez a vida traz mais problemas, mesmo que não sejam directamente nossos, e, mesmo que sejam lá ao longe, vemo-los através deste imenso mundo actual das telecomunicações e da informatização, sentindo-nos por vezes mais perdidos na vida do que em qualquer outra época, o que parece um contra-senso. Abstraindo de guerras, frias ou declaradas, de desmedidas e perigosas ambições, de perversos e escravizadores interesses pelo grande dinheiro,  de misérias que se encolhem ou se arrastam em insatisfeitas necessidades vitais, de psicoses e fobias, de cancros e outras maleitas incuráveis por falta de dinheiro dispensado pelos governos à investigação e à eficiente assistência médica, etc., fica-nos, mesmo assim, esse aparentemente inconsistente grande mal que é a actual falta de tempo para usufruir daquilo de que gostamos, ou de viver, principalmente porque, perante os actuais males da vida, vamos adquirindo um mal-estar interior e exterior que, quase sem darmos por isso, nos vai endurecendo e amargurando, desgastando-nos, de tanto nos sentirmos tristes e de nos lamentarmos. E aqui, neste novo mundo da Blogosfera, assim como  de outros campos da Internet, apesar de atraente, embora também algo distante ou frio, igualmente sentimos a falta de tempo para acorrer a tudo o que poderíamos querer fazer, mas, se nos entregarmos muito tempo a esta distracção, já não digo todo ou quase todo o tempo disponível, acabaremos por ficar viciados ou dependentes desta prática, o que mais nos afligirá por falta de tempo para outras coisas tão ou mais importantes do que a omnipotente Internet. E se já estamos em idade mais ou menos avançada, então o tempo ainda rende menos e mais nos aflige e descoroçoa, sobretudo quando temos assuntos pessoais a tratar para os quais temos de tomar decisões, muitas vezes difíceis, que vamos adiando, acabando por se ficar congestionado, saturado, quase desesperado... 

     Hoje, mais do que nunca, com tantas coisas novas para usufruir, é necessário saber viver. E, embora haja normas ou padrões que podem ser comuns ou colectivos, cada pessoa deve encontrar o seu próprio ritmo, utilizar o seu próprio tempo, em bem, em paz, em respeito, em amor, em sociedade, com alegria e ânimo, mas sem se deixar escravizar ou dependentizar seja por que for.

 

 

 

 

                                              O Castelo e a Igreja

 

 

Do alto da colina, muito desgostoso,

queixava-se dantes à Igreja Matriz,

um pouco abaixo, o Castelo, ruinoso,

com Mértola em pendor, em sinuosos perfis,

 

e dizia: «Sinto-me em estado lastimoso.

Turista que aqui venha o mesmo de mim diz.

Eu que no passado fui heróico, grandioso!...

E a vizinha Igreja parece, de branca, feliz...»

 

«Olhe, vizinho Castelo, não me leve a mal»,

começa, com pena, a Igreja a dizer,

«mas eu da religião sou, você foi marcial...

 

Antigos somos, mouros fomos, não esquecer,

mas eu, eterna, ensino Deus, paz, moral...

Você tem, em paz, de ao Bem se converter.» 

 

 

 

(Poema meu.)

 

                                                                         

 

     (Este soneto é dedicado à amiga Natália («Rosa Fogo»), do blogue Orquídea Negra, por ser referente a dois monumentos que ela fotografou em Mértola, minha terra, de que muito gostou e muito elogiou  — fotos do Castelo e da Igreja, além de outras, que ela muito amavelmente inseriu no seu blogue, sob a forma de slide, em 5 de Outubro, no post com o título «Visita surpresa».)

 

 

                                                                                                                                                            Mírtilo


Terça-feira, 29 de Setembro de 2009

 

 

     É certo que o Homem tem evoluído em todos os campos, obtendo sobretudo grandes conquistas nas ciências e nas tecnologias, que lhe vão trazendo mais bem-estar material e também mais qualidade de vida, de que resulta uma esperança de vida de mais anos, principalmente devido ao actual estádio da medicina.

     O Homem, todavia, continua a não conseguir conquistar a imortalidade, máximo anseio que sempre o assaltou, certamente pelo desconhecimento e temor do que se passa para lá da morte.

     Diga-se também que o Homem muito pouco, ou talvez nada, tem evoluído no campo  espiritual, continuando com os mesmos defeitos que sempre teve, por vezes parecendo mais agravados, discriminando, ofendendo, lutando, ferindo, matando, pela posse das suas presas, sobretudo a do dinheiro, do muito dinheiro ...

     Há ainda homens, porém, muitos, muitos, que ainda se interrogam sobre o desregrado ou mau caminho que tantos, tantos, por esse mundo pisam, enganados e enganando, convencidos de que vão bem na vida ou a tentar disso convencer. E esses que se interrogam anseiam paz e regresso dos outros ao bom caminho, embora de esperança muitas vezes a fenecer.

 

 

 

 

 

                                              Homem-miragem

 

 

Como é mortal o Homem! Movimento,

luta, evolução, desejo, grandeza,

mostram apenas a mortal fraqueza

frente ao Universo, em que o pensamento

 

lhe morre de impotência e exaustamento.

Tão fraco é o Homem na Natureza,

embora contra a espontânea beleza

tudo revolva até ao esgotamento! 

 

É tão tiste o Homem ao mergulhar,

cansado e ansioso de paz, na paisagem,

rogando-lha nesse enevoado olhar!

 

É tão pobre o Homem ... e tão selvagem,

que odeia até ao ponto de matar!

Homem-deus ou feliz é só miragem.

 

 

 

 

(Poema meu.)

 

 

 

                                                                                                                                                      Mírtilo     

publicado por Mírtilo MR às 21:32

Quinta-feira, 17 de Setembro de 2009

 

 http://jornalismodigital.f2j.edu.br/turma1/index.php?option=com_content&task=view&id=149&Itemid=2                                                              

     O desemprego é actualmente o maior problema laboral e social. Problema que,  em Portugal,  já vinha de antes desta crise económica internacional, com a generalização do contrato de trabalho a prazo e o fecho e a deslocalização de muitas empresas para outros países de salários bem mais baixos e com melhores benefícios empresariais concedidos pelos respectivos governos, mas de há cerca de um ano para cá, com o aprofundar desta imensa e medonha crise económica internacional e nacional, o negro panorama do desemprego muito se agravou, trazendo para as classes laborais mais baixas, de salários também muito menores, quer com contratos de trabalho a prazo quer não, a incerteza do futuro ou o desespero no presente, com todas as necessidades que a falta de dinheiro acarreta, sobretudo a fome, a não satisfação das dívidas, por vezes até a interrupção dos estudos dos filhos ou dos próprios trabalhadores.

     É claro que o desemprego é superior àquilo que o Governo em qualquer altura indica, que é o número oficial de desempregados inscritos, mas, como se sabe, há sempre muitos desempregados não inscritos, sobretudo quem anda sempre em contratos de trabalho a prazo e com intervalos entre os contratos, não se inscrevendo portanto, por achar que nada adianta, preferindo procurar emprego por si próprio, nem que seja em pequenos e muito mal pagos biscates, para sobreviver. Diga-se que no fim do primeiro trimestre do corrente ano a percentagem oficial de desempregados era de 8,9%, mas de desempregados efectivos era  já de 11,2%.

     E dos desempregados oficialmente inscritos nem todos recebem subsídio de desemprego. Apenas o recebiam, segundo dados oficiais e relativamente ao primeiro trimestre deste ano, um pouco acima dos 50% dos desempregados oficiais, mas, em relação ao desemprego real, ou efectivo, esse subsídio era recebido por menos de 50% dos desempregados. 

     A falta de salário, que é o único rendimento dos trabalhadores pobres em geral, ou, dizendo de outra forma, a falta de dinheiro, numa civilização em que o vil metal é sumamente importante, traz os gravíssimos problemas de que todos temos ouvido falar, mas que só quem os sofre os sente verdadeiramente.

 

 

 

                        Desemprego

 

 

O desemprego é realidade crescente e dura,

que aflige os trabalhadores nos nossos dias

— radicou-se o desprezo pela agricultura,

dispensam braços as novas tecnologias,

 

abalam empresas multinacionais frias,

interesseiras, sem pátria, sempre à procura

do lucro maior e de novas regalias,

concedidas sem contrapartida segura,

 

fecham portas empresas dúbias nacionais,

ou fraudulentas, ou a simular falência,

tudo isto gera desemprego cada vez mais,

 

e há também desemprego entre contratos a prazo.

E o Governo, incapaz, tenta com  frequência,

com estatísticas, disfarçar o infeliz caso.

 

 

 

 

(Poema meu.)

 

 

 

                                                                                                  

                                                                                                                                                           Mírtilo   

 

publicado por Mírtilo MR às 17:54


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