Todos temos um lugar, uma personalidade e um viver no caminho para a morte.
Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010

 

 

     Alguma vez o Homem conseguirá ser omnipotente, capaz de vencer ou de evitar tão medonhos e tão mortais cataclismos naturais, em que as omnipotentes forças da Natureza se manifestam por vezes, ultimamente com invulgar frequência, certamente com alguma culpa por parte do próprio Homem, devido ao seu desregrado ou desrespeitador comportamento para com a aparentemente transigente mas implacável Natureza?

     No tão recente, tão medonho e tão mortal caso do terremoto do Haiti, o Homem de novo estremeceu, de novo se solidarizou, mas, depois das primeiras e piores impressões, de novo, pouco a pouco, se revela apenas homem, com letra minúscula, isto é, esbanjador e não respeitador da Natureza e mau para o seu próprio semelhante, parecendo não ter consciência disso.

     Quantos vivos presos nos escombros do sismo do Haiti, alguns certamente com consciência e mortal desespero da situação em que se encontram, não haverá ainda à espera de que os salvassem, não havendo no entanto, incompreensivelmente, a necessária quantidade de máquinas escavadoras para o fazer e tendo o governo local já há uma semana decidido o fim das buscas? 

     O Homem, afinal, apesar da sua inteligência e solidariedade, continua a ser  apenas homem ...

 

 

 

                      Os Homens são apenas homens

 

 

De repente,

um imenso monstro cinzento asfixia o Sol,

vence-o

e parece rir como demónio.

O mundo fica escuro,

muito cinzento.

O Diabo semeia pavor

e solta ventos.

Escuro e mais escuro,

a terra é de cinzento sombrio,

as árvores são açoitadas por fúria de monstro,

os animais vão espavoridos

encolher-se nos buracos,

chove,

troveja,

o vento sibila desvairado

como besta enlouquecida,

dos telhados voam telhas

como se arremessadas pelo Diabo,

escuro e mais escuro,

as pessoas interrogam-se,

não sabem bem o que é,

mas sabem que é tragédia gigantesca,

sentem-na,

temem-na,

sua ciência é insignificante para se lhe opor,

encolhem-se,

escondem-se,

sombra,

o sol morreu,

há muitos feridos e mortos,

mas nem se soltam gemidos

para não enraivecer mais o monstro.

Que será dos barcos no mar?

Irão ao fundo,

haverá muitas dores e desesperos,

muitas mortes.

A terra é cada vez mais castigada,

ruge mais a medonha tormenta,

tudo é vergastado,

o chão parece quebrar-se,

e aqui e além rasga-se mesmo,

tombam mais árvores,

é o fim do mundo.

Os animais estão quietos nos buracos,

os homens,

que conquistam o espaço e revolvem a terra,

que exploram os mares,

que estudam e quase domesticam o planeta,

nada podem fazer,

há muito que não rezavam,

agora depuseram a ciência

e rezam,

rezam,

crêem em Deus,

pedem-lhe perdão os mais tementes

e o fim do cataclismo os mais frios,

são fracos os homens,

reconhecem-no,

há muito que o não reconheciam,

prometem

que no pleno regresso à vida só farão o bem,

não quererão de mais,

não serão ambiciosos,

não usarão mal sua ciência,

serão crentes e piedosos.

De repente,

a tempestade começa a rugir menos,

as árvores endireitam-se

como seres simples que foram lançados ao chão,

a tarde já é menos sombria,

clareia o céu e a terra,

o vento agoniza no seu respiro de brisa,

cessou o ribombar da trovoada,

as nuvens secaram as bocarras de chuva,

os animais espreitam à entrada dos buracos,

de olhos mansos,

e os homens sentem-se fortes,

saem de casa,

esquecidos,

vão na rua,

orgulhosos,

entram em classes distintas,

retomam sua luta,

ambição contra a humildade,

riqueza contra a pobreza.

Já são homens outra vez,

são homens,

apenas homens.

 

 

 

(Poema meu.)

 

              

                                                                                       Mírtilo

 

 

      

publicado por Mírtilo MR às 19:08

Amigo Mírtilo ! Já algum tempo que vinha por aqui, mas ainda não tinha visto nada para comentar. Realmente o homem estraga cada vez mais, e nada vale as cimeiras, continua sempre na mesma, a mim me causa muita pena que as pessoas continuem a pensar sempre igual e não acordem nunca?Lamento.
Beijinho de amizade e bfs
maripossa a 30 de Janeiro de 2010 às 00:41

Maripossa:

O meu agradecimento pela sua visita ao meu recanto blogueano, que esteve inactivo durante um tempinho, pois o vagar não é muito por o tempo não dar para tudo.
Tal como você diz, com o que eu concordo, o homem, realmente, cada vez estraga mais não só o planeta em geral como também as mentalidades e as consciências em geral dos próprios homens. E as pessoas em geral, ou pelo menos muita gente, deixam-se levar nessa onda de mudança que conduz à deterioração do ambiente e das pessoas.

Um beijinho amistoso.
Mírtilo
Mírtilo MR a 31 de Janeiro de 2010 às 22:06

Seria o planeta pedindo socorro aos homens?
Simbologia do aMoR a 30 de Janeiro de 2010 às 23:18

Simbologia do Amor:

Muito grato pela sua visitinha ao meu internético recanto, meu humílimo blogue, ultimamente pouco activo, em que vou expressando, com alguma simplicidade, retratos ou situações reais, podendo ser às vezes um pouco ficcionados, do dia-a-dia relativo a mim e à minha terra natal e, sobretudo, à sociedade em geral.
Não sei se seria mesmo o planeta pedindo socorro aos homens, como interroga no seu lacónico comentário. Penso é que o planeta talvez peça, por vezes, para não dizer muitas vezes, socorro aos homens, devido aos excessos destes, mas sem ser entendido, ou quase nunca o sendo, porque o homem continua quase a desconhecer ou a ignorar propositadamente as queixas ou reacções Terra, ou da Natureza.
O homem tudo tem sacrificado no planeta em favor da sua ânsia civilizatória materialista, mesmo em aspectos que nada valem ou nada de bom espiritualmente ou ecologicamente lhe trazem, apesar de recentemente já ter despertado um pouco para estes problemas.

Saudações amistosas para si.
Mírtilo

Fico agradecida pelo retorno.
Sempre que puder farei uma breve visita.

Vera

Ah! Poeta, os homens são assim mesmo, tem razão. O seu lado místico apenas parece despontar nas grandes aflições... só então se apercebem da sua fragilidade e da futilidade da sua ambição material. Frágeis, mais frágeis do que formigas perante a tremenda força da Terra Mãe... mas eu gosto deles assim, o que quer? São meninos pequenos - somos meninos pequenos - a dar os primeiros passos no conhecimento... é uma fase menos feliz da humanidade mas provavelmente necessária ao seu crescimento... esperemos que cresça depressa e bem! Melhor, cada vez melhor na sua capacidade de sentir, consciencializar, exprimir e partilhar.
Abraço grande!
poetaporkedeusker a 2 de Fevereiro de 2010 às 11:42

Poetaporkedeusker:

Graças pela sua visita a este meu humílimo recanto blogueano e pelas palavras que expendeu sobre a fragilidade e futilidade, em termos absolutos, da ambição material do Homem, em procura certamente da imortalidade, ou de mais poder, mas de caminho por vezes tanto se autodestruindo ou tanto mal semeando sobre a Natureza.
Como você diz, ou deseja, oxalá a periclitante caminhada da Humanidade seja uma fase menos feliz mas necessária ao seu crescimento, ao seu aperfeiçoamento, com estes desaires, frequentemente trágicos, e outros que virão, fase esta que um dia possa desembocar num maravilhoso e pacífico estádio perene de bem-estar universal. Não creio que isso vá facilmente acontecer, ou até de modo nenhum. Mas, pelo benefício da dúvida, ergamos a esperança ...

Um abraço.
Mírtilo
Mírtilo MR a 2 de Fevereiro de 2010 às 22:05

Eu ainda tenho esperança, meu amigo. Ergamos, portanto, a taça da esperança!
Um abraço GDE!
poetaporkedeusker a 3 de Fevereiro de 2010 às 16:29



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