Todos temos um lugar, uma personalidade e um viver no caminho para a morte.
Domingo, 31 de Maio de 2009

 

     Muito ou quase tudo se pode dizer da poesia: das suas causas, dos seus efeitos, da sua profundidade de sensibilidade, dos seus estilos de forma e de conteúdo ... Diga-se, porém, que a poesia pode ser (é) uma arte que dignifica o espírito,  valoriza-o, estática ou dinamicamente, alimenta-o («A poesia é para [o espírito] comer», dizia o poeta Ary dos Santos),  fá-lo sofrer, fá-lo amar ... Poder-se-ia dizer também que, se os governos não fossem em geral só constituídos por tecnocratas, economocratas, nomocratas e plutocratas e tivessem também poetas, talvez a política fosse algo melhor, mais sensível sobretudo às pessoas mais necessitadas ou mais sofredoras, mais sentimentalizada, mais pacífica, mais gratificante para o espírito ... E o espírito é atreito a dúvidas que a política, pelo que é e como está, provoca ou agrava, fazendo diminuir a esperança de os homens terem um dia um mundo melhor, para já não dizer de todo justo, um mundo com mais sensibilidade e amor pelos outros, com liberdade de exprimir, sem qualquer receio, político ou civil, os seus íntimos ou sociais problemas, como se com qualquer pessoa se falasse para um verdadeiro amigo. Mas os governos em geral, além de não gostarem de incluir poetas, nem gostam de os ouvir, talvez até nem gostem que eles existam, e talvez também por isso os poetas não gostam de ser governantes, nem tal reivindicam, como se fosse algo que os manchasse, que lhes roubasse a alma, preferindo continuar com ela a sofrer ou com dúvidas sobre a vida e o mundo. 

 

 

 

                   http://coruche.blogs.sapo.pt/arquivo/662625.html                                

                                              Dúvida

 

 

Peço aos dias, como esmola,

que me indiquem um caminho,

que me descubram a mim,

que digam como hei-de ser ...

Mas os dias passam por mim ...

Não têm pena de me deixar

na dúvida do que é a vida.

 

Há dias que me mostram Cristo

e segredam-me que sofra pelo bem,

que seja humilde e paciente

e terei cheio o coração

daquela felicidade

que só sentem os simples agradecidos;

outros dias dizem-me, a zombar,

que seja mármore e prazer

e mostram-me o prémio, sensuais,

dum monte de dinheiro

e dum quarto fofo e morno

com corpos quentes e nus de mulheres,

e viagens, e praias, liberdade ...;

outros dias me aconselham, como amigos,

que me vista de indiferença

e mostram-me o prémio, calmamente,

duma vida sossegada e secreta,

duma vida sem tesouros nem misérias.

 

E eu enrosco-me nas noites

como um cão sem dono e doente,

de sono fraco e intermitente ...

Asfixia-me a dúvida,

chora-me o desespero,

e os dias continuam fugazes,

não me dizem ao certo como hei-de ser ...

Ah, dúvida, deserto da vida!

Eterna variedade dos homens!

Eterna ignorância dos homens!

 

Revoltar-me? Contra quem?

Contra a dúvida? Contra o homem?

Contra mim?

Ah, dúvida, dúvida!

És como um mau alimento

que separa, dispersa os homens

em «raças» diferentes,

mas que a mim reparte em três

sem chegar a ser nenhum. 

 

 

 

(Poema meu.)

 

 

 

 

                                                                

                                                                                                     Mírtilo

 

publicado por Mírtilo MR às 22:06

Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

 

 

     A poesia sempre me tomou muito, tanto positivamente como negativamente. No aspecto positivo, servindo-me de tão bom alimento para a alma  — dando-me então prazer, um prazer que parece não ser deste mundo, ou das pessoas em geral —  e permitindo-me conhecê-la melhor, embora sem o conseguir de todo, dados os labirintos e recônditos cantos e recantos que a alma possui ou que parece inventar. No aspecto negativo, trazendo-me tantas vezes, para não dizer quase sempre  — devido ao tipo de poesia que fazia, e ainda faço —,  além de perda de tempo relativamente aos aspectos materialistas das vidas de todos nós, trazendo-me, dizia, tristeza, angústia, desespero, revolta, desistência, dor, doença, poderei até dizer morte ... , e acrescentar, a este respeito de morte, como nota  do máximo de intimidade em mim, que, em certo aspecto, morri há muito, ainda muito jovem ... Mas, ainda assim, acho que foi bom, muito bom, ter feito poeticamente o que fiz.

     Os meus poemas são geralmente extensos e dramáticos, por vezes raiando algo de trágico, estando de harmonia com a sensibilidade e a imaginação que me estremecem o âmago e que vão por aí à minha volta, ou mais além, ou por esse mundo ...

     Desta feita, porém, postarei aqui um poema que não é extenso.

 

 

 

                                                       Dor

 

 

Meu corpo tem dores de mártir

e grilhos de escravo eterno,

tem espuma de cavalo fustigado

e sangue de homem decepado;

foi fonte, luz, esperança,

sonho de aldeia e de cidade;

depois foi muralha encolhida

onde chocaram balas de realidade

e correram os prantos quentes 

do destroçar das ilusões.

 

Tenho no sangue o tempo

que o tumultua e enche

de cataratas de desespero,

nos miolos tenho um vulcão

que me quebra a fronte

em cefalalgias de loucura;

com força e ânsia correria

para longe deste fracasso,

ou dormiria até acordar outro,

sem memória ou sem conhecer o mundo.

 

 

 

(Poema meu.)

 

 

 

 

 

                                                                                                                      Mírtilo 

publicado por Mírtilo MR às 16:24

Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

 

    

     Os Portugueses vão de novo este ano ser chamados a eleições:  para as Europeias, isto é, para o Parlamento Europeu;  para as Legislativas, ou seja, para a Assembleia da República (que indirectamente também servem para formar Governo, pelo partido mais votado); e para as Autárquicas, isto é, para o Poder Local.

     A campanha para  as Europeias já começou, já por aí anda, como de costume a gastar-se fortunas, milhões e milhões, a fazer-se promessas e mais promessas que depois não se cumprem ou quando muito só se cumprem minimamente, sendo claro que quem falta mais à verdade, ou totalmente à verdade, são os partidos que são sempre mais elegíveis, os dois maiores. É claro que para as Europeias, as da decorrente campanha eleitoral, o problema das promessas não impressiona nem afecta muito os Portugueses em geral, ou uma grande parte deles, porque são eleições que, ao longo do tempo em que já existem, nunca lhes disseram grande coisa, como se comprova através da sempre elevada taxa de abstenção.

     Quando vierem as Legislativas, aí, sim, já os Portugueses em geral se impressionarão muito mais com as muitíssimo mais elevadas verbas gastas em campanha eleitoral e com as também mais numerosas e mais vastas promessas que, como é usual, não irão ser cumpridas, totalmente ou parcialmente, por quem vencer essas eleições. Quase sempre tem sido assim, em maior ou menor escala, o que tem feito perder ao povo em geral o elevado conceito do voto, dito em democracia, ou até a vontade de ir votar, por se achar, ainda que se queira ter alguma esperança, que vai ser sempre o mesmo tipo de governação, já que os dois partidos que se revezam no Poder apresentam ou têm políticas muito idênticas, embora o que calha a ficar na Oposição se queira fazer e argumente ser diferente, para melhor, claro. É que, actualmente, são dois partidos que, embora se digam e tivessem sido de tendências políticas razoavelmente diferentes, acabaram por ficar praticamente iguais ou semelhantes.

     Quanto às Autárquicas, que são eleições especificamente para o Poder Local, têm a esse nível a sua grande importância e são encaradas sobretudo com a finalidade de desenvolvimento local para o bem das respectivas populações. É claro que também têm a sua quota-parte de promessas que não serão cumpridas.

     Sem dúvida que as Legislativas são em geral consideradas as mais importantes, por servirem para legislar a nível nacional e para formar Governo para o País, e é nestas eleições que o povo em geral deposita ainda ou desejaria depositar razoável esperança para a melhoria das suas vidas, esperança essa que tem vindo, ao longo dos trinta e cinco anos de democracia (de voto), sobretudo mais recentemente, a baixar, a esmorecer, por serem tantas as desilusões sofridas, mormente pelos mais necessitados, e juntamente com a perda de esperança se foi perdendo  algum ou muito apreço ao voto democrático, às instituições democráticas e aos políticos em geral ...

 

 

 

                                                        Democracia

 

 

25 de Abril. Ávidos vivas à democracia.

O povo ia ser livre de todo finalmente,

graças à coragem e ao esforço superingente

dum punhado de militares, da noite para o dia.

 

Não mais as mordaças e o exílio haveria,

não mais a fome, a injustiça, a inculta mente,

era a educação, paz, pão, casa, a toda a gente,

em livres eleições o voto se outorgaria.

 

Hoje, trinta e cinco anos de frias desilusões,

ao livre voto se foi perdendo respeito,

se perdeu apreço e fé nas instituições,

 

se nutre por políticos enorme despeito

— está corrupta a democracia e com restrições,

qual ansiado mas muito enganoso conceito.

 

 

 

 

(Poema meu.)

 

 

 

 

 

 

                                                                                                            Mírtilo

 

 

 

 

 

 

publicado por Mírtilo MR às 16:03

Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

 

 

     Em Portugal, assim como por outros países da Europa, vão terminando os campeonatos de futebol. Vai-se aproximando uma paragem nas competições deste desporto, «desporto-rei», como vulgarmente é chamado, até pelos relatores e comentadores desportivos, querendo com isso significar que é ao futebol, de entre todos os desportos, que se dá inequivocamente muito mais atenção e meios, pode dizer-se que não há comparação possível,  e que,  certamente também por isso, é o futebol que arrasta, também incomparavelmente, muitíssimo mais as multidões.

     Sem qualquer sombra de dúvida, o futebol sempre foi de há muito o grande desporto do povo em geral, quer a nível  do escalão superior, isto é, da primeira divisão nacional, quer a nível regional e local, isto é, em todos os outros escalões ou divisões, ou seja, regional e localmente o povo tinha o clube da sua terra ou de terra próxima e cujos jogos via e com os quais vibrava familiarmente,  e a nível de primeira divisão tinha também o seu clube de adepto, ao longe, quase qual heróico ou patriótico clube superior. E dizia-se, isto é, dizia sobretudo a Oposição ao Regime do Estado Novo, incluindo muita gente da classe culta de então, que com futebol (e com vinho) o povo estava abstraído dos problemas políticos e sociais que o afligiam e não se cultivaria tanto, sendo por isso mais remota a hipótese de sublevações populares ou de reivindicações, pois um povo inculto, mergulhado em obscurantismo, seria sempre mais fraco e mais fácil de conter.

     A seguir ao 25 de Abril de 1974, no auge do espírito progressista e do combate ao velho estado das coisas, muito se disse que o anterior Regime tinha o povo alienado pelo futebol e tentou-se modificar isso, tirando a esse desporto alguma da idolatria que o povo lhe dedicava. E conseguiu-se minorar um pouco essa admiração exagerada pelo futebol, sobretudo o da primeira divisão nacional. Para algum tempo depois, não muito, em reviravolta ainda mais engrandecedora ou alienadora do futebol, até as elites sociais, incluindo políticos e governantes, incompreensivelmente, inesperadamente, se voltarem mais para o futebol, até que se começou a compreender o porquê disto: era uma certa táctica de caça aos votos para quando viessem eleições e também uma certa prática promíscua de política, capital e futebol que se poderia traduzir em dinheiro, em lucro.

     E assim se chegou aos problemas que ultimamente se despoletaram relativamente à promiscuidade de futebol, política e capital, com muitos casos que chegam ou não a tribunal mas que vão regra geral acabando a contento dos réus ou dos arguidos.

     E será admissível que os futebolistas,  ainda que os melhores, em geral com fracas habilitações literárias ou culturais e sem qualquer curso específico ou outro, apenas repetida prática, aufiram fabulosas fortunas em comparação com profissionais de nível elevado e, muito mais chocantemente ainda, em comparação com  os tão parcos salários dos trabalhadores em geral?

 

 

 

                                                  Futebol

 

 

Não é preciso, para ser bom futebolista,

curso académico ou profissional possuir,

nem de grande intelecto ou cultura usufruir,

basta ter jeito e sobretudo que a sorte assista,

 

mas, em curto horário de trabalho a cumprir,

o ganho é imensamente mais que cientista,

médico, advogado, engenheiro, governante, artista.

E os clubes de economias quase a falir,

 

muitos sem os impostos ao Estado pagar,

mas vendem, quais objectos, jogadores por milhões,

talvez recebam capital sujo a branquear.

 

E nos estádios claques em selvagens acções,

árbitros que, a errar, estragam jogos, sem pena.

Futebol é poder, intimida, corrompe, aliena.

 

 

 

 

 

(Poema meu.)

 

 

 

 

 

                                                                                                      Mírtilo

 

 

 

                                                                             

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

             

 

 

 

                                                

   

 

 

                                                                    

      

publicado por Mírtilo MR às 16:23

Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

 

    

      O homem, pelo progresso, luta cada vez mais contra a Natureza, sobretudo no âmbito da construção civil e obras públicas, tantas vezes revolvendo e destruindo terras agrícultáveis ou de floresta, desagregando ou desfazendo massas de rochas, podendo com isso desequilibrar em algo o ecossistema de uma região ou de um local, ou  provocar alguma carência de alimentos ou de matérias-primas vegetais, que depois terão de ser importados, ou podendo causar deslizamentos de terras que poderão ser perigosos sobretudo para vidas humanas, ou morrerem alguns trabalhadores enquanto trabalham, devido às, por vezes, tão deficientes condições de trabalho, tão arriscadas, dando origem a tantos acidentes de trabalho, que põem Portugal a esse respeito, infelizmente, num dos lugares cimeiros na Europa. 

     O chamado progresso, ainda que útil, muitas vezes assemelha-se a uma entidade contra a qual parece não se poder parar e ter de se lhe dedicar tudo o que seja moderno e considerado necessário e que traga grandes lucros em dinheiro, camuflados de conforto e de postos de trabalho, embora às vezes seja pior a emenda que o soneto.

     Enquanto trabalham, os trabalhadores, além de se lhes dever dar todas ou o máximo de condições de segurança, implementadas pelas próprias empresas e fiscalizadas pelas  inspecções do trabalho oficiais, devem, eles próprios, desempenhar os seus serviços cumprindo rigorosamente as normas de segurança e, mesmo assim, com o máximo de precaução e atenção.

     O pior de tudo é que sempre houve e continua a haver falhas, por vezes graves e trágicas, ao nível das empresas empregadoras, ao nível  das inspecções oficiais e ao nível também dos trabalhadores, a que podem juntar-se também, posteriormente, depois dos acidentes, falhas no funcionamento dos hospitais.

     Transcrevo, a seguir, um poema que há muitos anos fiz, algo relacionado com o que foi dito atrás.

 

 

 

                                                    O homem  e a rocha

 

 

A rocha espera, espera,

silenciosa,

no seu leito de monstro morto,

embebida em tempo que a não desperta

com carícias de mole cinzel;

mas o homem,

que não se conhece

e se procura

no éter  e nos avessos do que pisa,

vai ali

procurar-se:

 

olha,

pensa

e despreza a vontade do pétreo ser;

empunha sua máquina,

martelo pneumático,

que às vezes lhe trai

a pátria de raciocínio,

e toca de a fazer rugir

como o mais feroz monstro

contra o sono de pedra

velado por milénios.

 

É monstro

contra monstro,

homem de rocha

e rocha para homem;

ruge o homem na máquna,

a pedra ameaça com chispas;

há desafio,

há luta;

o homem arqueja

e rende-lhe a rocha dois calhaus;

ambos estão exaustos;

armistício.

 

O contendor humano

muda rios de suor

do cimo da testa

para as costas das mãos

e olha o adversário com ódio,

e a pedra aguarda

toldada pelo seu suor de pó.

Cospe o primata nas mãos,

esfrega uma na outra

e de novo o combate:

 

luta,

rugidos,

chispas,

teimosia de onagro,

firmeza de rocha,

uivos de dor do ferro,

chispas,

raiva,

e de repente ...

 

Rasga

as frenéticas entranhas do homem

um berro de dor selvagem,

voam-lhe da máquina as mãos

para arrancar ao olho ferido

a flecha de pedra

que lho cega

e lho queima em vulcão de loucura.

 

Inútil o seu desespero,

uiva,

esfrega,

chora,

está cego,

louco de dor ...

 

A ambulância vem buscá-lo,

estridentemente,

e despeja-o no hospital.

 

E a rocha

esfria e adormece de novo,

como as enormes e plácidas pedras,

no fundo do tempo infinito.

 

 

 

 

(Poema meu.)

 

 

 

 

 

 

 

                                                                                                     Mírtilo

 

 

 

 


Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

 

    

      O problema da Justiça, que, antes da crise económica e laboral que já tínhamos,  com a deslocalização — por vezes ilícita ou fraudulentamente, com  prejuízo até para o Estado por tantos benefícios fiscais e outros concedidos — de tantas, tantas, empresas para os países de Leste, com  mão-de-obra muitíssimo mais barata, e o consequente crescente desemprego, deixando trabalhadores com salários por receber, o problema da Justiça, dizia eu, já era então grave e muito mais se agravou com a depois sobrevinda crise económico-financeira  internacional, portanto também portuguesa, dado o actual contexto de economia global existente por todo o mundo. E nós, os leigos em economia, mas também os doutos na matéria, vimos, surpreendidíssimos, a economia mundial ir-se desmoronando como (e desculpem a imagem comum) um baralho de cartas, ou, menos comum, como uma engenhosa mas fraca construção de pedras de Lego.

     O desemprego, que já era tão grande e tão dramático, piorou e dramatizou-se de tal forma que o País (foco, como é lógico, a análise no nosso país, e o que digo não é novidade para ninguém) quase entrou em preâmbulo de colapso, com tantas empresas, sobretudo micro, pequenas e até médias, a falir e a deixar no desemprego ainda muito mais trabalhadores, com mais salários em atraso, que têm de desistir de empréstimos em que estavam comprometidos, sobretudo o do bem tão essencial e constitucional que é a habitação.

     A Justiça, que já estava mal, também mais se agravou concomitantemente com o exacerbar da crise económica, isto é, com o mais crescente aumento do desemprego, dando origem a que muita gente, sobretudo jovens e especialmente jovens de difícil inserção social, por terem fracas habilitações escolares e por viverem em bairros problemáticos e também por estarem cansados de procurar e não arranjar trabalho, dando origem a que muita gente, dizia eu, se afunde em desespero de ter pelo menos o pão para sobreviver dia a dia. E daí, sobretudo por parte de muitos dos referidos jovens, o aumento da criminalidade, com o imenso problema que acarreta à máquina da Justiça, isto é, às forças de segurança pública, à Polícia Judiciária, ao Ministério Público, aos tribunais, à Direcção-Geral dos Serviçios Prisionais e ao próprio Estado, mas também e sobretudo aos cidadãos, com especial relevo para os tribunais, que, por terem de julgar, se vêem actualmente sumamente embaraçados de processos a que é impossível dar satisfação em tempo razoável.  

     Transcrevo a seguir um soneto meu que mais ou menos, dentro das contingências de espaço dum soneto, mostra a actual dificuldade da Justiça, sobretudo por parte dos tribunais.

 

 

 

                                                           Tribunais

 

 

Cresce a criminalidade cada vez mais,

qual tumor maligno desta civilização,

ou praguedo de incontrolável proporção,

e abarrotam de processos os tribunais

 

— há muitos crimes novos, mais os tradicionais,

e há processos em exaustiva profusão,

em mesas, armários, secretárias, no chão,

em pilhas que não param de crescer jamais.

 

Não há juízes, funcionários, instalações,

que consigam tanto processo suportar,

e anos demora o julgamento das acções.

 

Justiça lenta, adiada, não é de apreciar,

favorece os maus e lesa as justas razões

e vai pelos bons cidadãos descrença semear.

 

 

 

(Poema meu.)

 

 

 

 

 

                                                                                            Mírtilo 

 


Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

 

    

 

     Viver é, por vezes, duro e triste para muita gente, gente muito sensível aos mil e um problemas de hoje, gente que gostaria de viver em paz, numa sociedade mais fraternalista, mais solidária, mais justa, menos opressora, menos racista e menos discriminadora, menos poluidora, o que parece uma utopia, mas a utopia parece por vezes um subterfúgio de quem não quer que se realize o que ela significaria.

     Por isso, quem sofre de ou por tais problemas de índole social e política, sobretudo nos grandes meios urbanos, encontra por vezes na evasão, na fuga, física e espiritual,  permanente ou provisória, ou no simples refúgio dentro de si sem sair do local em que normalmente está, a atenuação ou a cura do sofrimento infligido pelos referidos problemas, ou pelo menos tenta tal cura.

     E é natural que quem tem alma poética ou pensa tê-la queira voar nas asas tristemente doces e libertadoras de um seu poema, ou de outrem, para algures onde possa lenir seu sofrimento, que pode ser de desespero.

 

 

 

                     Desespero

 

 

Ó auroras de mansidão ferida,

dias de horas férreas e venenosas,

em vossas veias letais e ruidosas

sinto a pátria do espírito perdida.

 

Se Ceres fértil, de fronte florida,

e Pã com suas flautas maviosas

deixassem as tumbas fuliginosas

e em agro ou serra dessem paz de vida

 

à minha alma que em dor se esvai ferida,

fugiria às técnicas asquerosas

de urbes sem alma e feição poluída

 

e mesmo em bagas de suor custosas

e em cabana com gretas construída

não teria mais horas revoltosas.

 

 

 

(Poema meu.)

 

 

 

                                                                                        Mírtilo

 

 

 

publicado por Mírtilo MR às 22:30

Domingo, 10 de Maio de 2009

    

 

 

     Umas pessoas dizem, algo tristemente, que a vida é difícil de compreender, outras dizem, com alguma esperança, que tem altos e baixos, ou, inversamente, baixos e altos, outras dizem, desesperadamente, que não vale a pena viver, outras, ainda, são de opinião de que a vida é bela, simplesmente, superficialmente, ou descontraidamente, e acrescentando algumas dessas que nós é que damos cabo dela, outras, com humor e indiferença, afirmam que o que é preciso é acordar vivo... 

     Seja como for, a vida é realmente algo difícil de compreender, de normalizar, de modelar, porque há uma vida em nós, a nossa, que já nos é difícil de trabalhar bem, com tudo o que isso implica, e há também a vida da sociedade, feita  pelo conjunto das nossas vidas, que são diversas, e à qual temos de estar ligados e dar o nosso contributo, social, cultural, económico, político, etc., ou pelo menos, que em geral é o mais, suportar a acção dos que nisso se impõem, que depois se tornam, ou podem tornar, os grandes, os influentes, os líderes, que podem dirigir ou governar a máquina da sociedade no sentido que acharem mais ou menos melhor para todos, o que raramente acontece, ou no que preferirem para si próprios, para os seus interesses pessoais, ou de grupo, ou de ideologia (partido).

     As sociedades modernas, economicamente a viver num esquema de economia neoliberal, com total liberdade de mercados e encolhendo os custos de produção, sobretudo em pessoal, com o próprio Estado, pelo Governo, a  ser também  economicamente tenso e a encostar-se ao neoliberalismo, são problemáticas em matéria de presente e também de futuro para os seus cidadãos, vendo-se dia a dia mais e mais lacunas, buracos, deficiências, descoordenações, injustiças, acções ilógicas, claro também abusos de poder, irresponsabilidades, fraudes ...

     E aos cidadãos, sobretudo aos mais sensíveis ou  mais necessitados e com conhecimento destes problemas sócio-políticos, navega-lhes constantemente o espírito em dúvida, descrédito, desespero, angústia ... Mas o que vale a muitos é que num dia estão assim e passado algum tempo, alguns dias, ou um dia apenas, o seu próprio espírito parece que produz ou recebe, às vezes  sem se saber bem como ou de quem, mais uma réstia de esperança que os vai acalmar um pouco por mais algum tempo, como se as suas vidas fossem feitas de marés de esperança e desesperança, em qual fluxo e refluxo... 

 

 

                                 Fluxo e refluxo

 

No dia em que a vida se torna pesada

derrubam-se moinhos e castelos,

volatiliza-se o cimento que nos associa,

caem mesmo as paredes da nossa igreja,

e ao atravessarmos as ruas da vida

somos células isoladas, semimortas,

como tomos dum corpo que era grande;

falta-nos a vontade de gostar, de irmanar,

caminhamos de expressão firme de indiferente,

sem outro sintoma válido de vida

que a introspecção dolorosa ou inerte.

Há um dia seguinte com novo sol,

uma luz que fulge alegria infanto-adulta,

localizada no candelabro de nossas almas,

inebriando-nos de tal contentamento

que sentimos necessidade de olhar,

de gostar, amar, irmanar de novo,

de erguer moinhos e castelos,

com uma igreja na nossa expressão

— como se a vida fosse uma maré

que flui e reflui ao sabor de estranha força.

 

 

 

(Poema meu.) 

 

 

                                                                    Mírtilo

 

 

 

 

                

                                 

 

 

 

   


Quarta-feira, 06 de Maio de 2009

 

                                                        Actual MÉRTOLA, antiga MYRTILIS

 

 

 

   Mértola, vila do Baixo Alentejo, foi cidade muito importante e muito disputada durante as ocupações romana e árabe.  Era, pode dizer-se, o último porto do Mediterrâneo, naqueles tão recuados tempos, apesar de situada à beira do rio Guadiana a várias dezenas de quilómetros da sua foz.

   Foi a Myrtilis dos Romanos e a Mirtolah dos Árabes.

   Histórica e  monumentalmente  foi-se afundando, soterrando,  e foram também levados para fora bocados ou peças testemunhais do seu profundo passado.

   Mértola, já  na nossa época,  passou por um muito longo período de empobrecimento  a todos os  níveis,  e  alguns monumentos foram sofrendo deterioração, sobretudo o seu sobranceiro Castelo, que chegou a sofrer de avultada ruína.

   Depois de 25 de Abril de 1974, com a abertura de Portugal a si próprio e ao mundo, mais concretamente a partir da década de oitenta, a Câmara Municipal foi adquirindo técnicos e equipamentos e criando serviços apropriados que se foram encarregando de não só reparar as deteriorações ou arruinamentos existentes como também de pôr a descoberto, até aos dias de hoje, muita da riqueza histórica soterrada, numa altamente meritória e  incansável obra de levantamento arqueológico — de tal modo que nos dias de hoje Mértola é conhecida por Vila-Museu, valendo bem a pena uma visita a Mértola, sobretudo por parte de quem se interessa pela História ou pelo passado das nossas terras e do nosso povo.

   Voltarei a falar muitas mais vezes sobre Mértola. Agora, para completar ou esclarecer um pouco paisagisticamente a fotografia desta vila acima, vila que é, diga-se, linda e original, muito pictórica, descrevê-la-ei, a seguir, através de um soneto meu feito há muitos anos, que tem um nome muito elucidativo no sentido que aqui se propõe.

 

 

                                         Postal clássico

                                             de Mértola

                                        

                              

                       No alto planalto do cerro, o Castelo,

                       (apesar da ruína, altaneiro e belo);

                       pouco abaixo, a bem branca Igreja Matriz,

                       (mesquita antes da fundação do País);

 

                       muito a descer pelas encostas sul e nascente,

                       a vila antiga, branca tão expressivamente,

                       (que cidade forte foi na Antiguidade),

                       até a travar e proteger, na verdade,

 

                       a antiquíssima muralha circundante;

                       abaixo, o calmo Guadiana, deslizante,

                       (por muitos povos antigos tão navegado);

 

                       (o pendor poente é deserto e alcantilado);

                       para norte, extramuros, mais suavemente,

                       a vila expandida e a ponte, necessariamente.     

 

 

                        (Poema meu.)                              

 

 

                                                                                                                Mírtilo

                                                               

 

 

 

 

 

 


Domingo, 03 de Maio de 2009

 

 

     Hoje,  3 de Maio, é o Dia da Mãe, dia  em que qualquer filho e respectiva mãe, ainda vivos, recordam  com amor e carinho, ainda que com uma ou outra excepção que nada nubla este santo dia, suas tão estreitas e tão originais relações, inigualáveis, passando o dia juntos, ou pelo menos algumas horas ou momentos,  na medida em que puderem, ou em que  filhos e mães recordam com saudade tão triste, lutuosa, os que deles já morreram.

     Actualmente o Dia da Mãe comemora-se no primeiro domingo de Maio, mas já se comemorou a 8 de Dezembro.

     A seguir  insiro neste meu blogue um poema que há muitos anos, umas quatro dezenas de anos, dediquei às mães, poema singelo, em quadras, em que friso, sempre no primeiro verso, de quatro sílabas, uma das qualidades de uma mãe e depois, nos três versos seguintes de cada quadra, de sete sílabas, explano, relativamente, claro, cada uma dessas qualidades das mães.

 

 

                                                         MÃE

 

                                                    

                                Mãe, doce mãe,

                                que ao ventre deste calor,

                                a carne da tua carne

                                e alma do teu amor;

 

                                mãe, estóica mãe,

                                sublime na hora do parto,

                                corpo rasgado de dor

                                e coração de amor farto;

 

                                mãe, pia mãe,

                                corpo em cansaço prostrado,

                                na luta do pão para os filhos

                                em suor  e amor amassado;

 

                                mãe, meiga mãe,

                                no mal divina enfermeira,

                                com remédios de carinho

                                que duram a vida inteira;

 

                                mãe, triste mãe,

                                que vês teu filho abalar

                                para a guerra crua e atroz,

                                sem saber se o vês voltar;

 

                                mãe, pobre mãe,

                                que o filho longe morreu,

                                chora para sempre tua alma

                                a riqueza que perdeu;

 

                                mãe, santa mãe,

                                alma e corpo aos filhos teus,

                                tesouro noutro tesouro,

                                um bocadinho de Deus.   

 

 

                         

                                (Poema meu.)                  

 

 http://olhaioliriodocampo.blogspot.com/2007_12_01_archive.html                                                                                                       

                                                                              Mírtilo  

                                                  

  

 

                                                    

 

                                          

 

         



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