Todos temos um lugar, uma personalidade e um viver no caminho para a morte.
Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

 

     Portugal é realmente um país pluralista, sobretudo na distribuição da riqueza:  uns, para se governar «à grande e à francesa», contam com milhões; outros, por sua vez, para vegetar, contam com tostões. E há uma terceira «raça» deste pluralismo económico, a que se pode chamar «classe média mas alta», que gravita em torno da «raça» dos milhões, sendo-lhe útil, tentando ascender ou aproximar-se dos milhões para ver se vem para eles mais algum «mimo», que é como quem diz  mais alguns ou muitos milhares, ou até mesmo algum milhão.

     E é isto a sociedade que temos, pluralista no aspecto económico, à semelhança da que tínhamos antes mas agora em escala muito maior, que foi enterrando pouco a pouco, praticamente desde o primeiro governo constitucional após o 25 de Abril, muitas das tão juradas e tão acreditadas promessas económicas e sociais da Revolução, sociedade pluralista esta demasiado agravada sobretudo nos últimos anos, com os governos a consentir mais e mais e até a impulsionar.

     E agora aí tem aparecido o maravilhoso resultado desse pluralismo económico, com a desculpa, é claro, da crise, da de fora, está visto, porque cá dentro, onde os pobres sempre sentiram o doer de uma crise, não havia crise, pois os nossos governantes têm sido excelentes e nunca permitiriam semelhante coisa, isto, é, não é por eles que há crise, ou seja, para explicar melhor, não é por eles que os pobres só vegetam e não hão-de passar disso.

     Quem tem fraco ou fraquíssimo rendimento, seja de salário, seja de pensão de reforma,  isto é, tostões,  parece que vive excomungado e desprezado pelos que ganham ou têm milhões ou aspiram a isso, mesmo que ainda bastante aquém de um milhão,  sentindo aqueles, os dos tostões, coitados,  enormes ou enormíssimas dificuldades para satisfazer, ainda que muitas vezes abaixo do limiar da pobreza, as suas mais básicas necessidades. E não fora a intervenção de instituições particulares de solidariedade social a favor de muitos, não podendo ser  a favor de todos, ajudadas pelos comuns cidadãos em geral, através de peditórios, e teríamos, como temos, muita mais gente a passar ainda maiores necessidades e até, como também temos, mais gente a morrer à fome — mas o problema, claro, repetindo, não é dos governos que temos tido, pois têm sido bons, mas sim das pessoas necessitadas, que são pobres e não souberam enriquecer, porque há no País pluralismo económico ... 

     Veja-se agora, com o rebentamento das bombas económico-financeiras do BPN  e do BPP,  que é como quem diz  com o despoletar de enormíssimas fraudes e desvios de tantos milhões naqueles bancos, o que para aí vai, além do mais que andava e ainda andará escondido ... Milhões, milhões, milhões! ...

     E o pobre povo com  tostões, tostões, tostões!...

     E depois deste texto de cariz político-social algo irónico e satírico, transcrevo dois sonetos sobre a dificuldade de viver de quem só tem tostões. 

 

 

 

                                Pensão mínima                                                            

 

 

A vida está bastante cara em Portugal

para um fraco salário ou magra pensão,

e isto aflige grande parte da população,

sobretudo com pensões mínima e social,

 

caso mais plangente, que fere o coração

— idosos que gastam da miséria pensional

boa parte em medicamentação vital,

ficando depois quase sem alimentação,

 

mais se debilitando no aspecto geral,

para peixe e carne não sobra da pensão,

uma asinha de frango é prato essencial,

 

com alguns bagos de arroz e um pouco de pão,

fruta murcha ou podre, barata, de animal.

E o resto?! E o Governo não mostra compaixão.

 

 

 

(Poema meu.)

 

 

 

 

                                 Dentes e óculos

 

 

A Segurança Social já não tem dentista,

há que ir forçosamente a algum privado,

mas seja arrancar dente, seja dente chumbado,

muito pior se for prótese, quase elitista,

 

não há médio salário ou pensão que resista,

menos ainda rendimento mais degradado;

também não se resistirá, por outro  lado,

com tais rendimentos, se o problema for da vista,

 

pois, além de consulta de preço também elevado,

lentes graduadas e armações, no oculista,

têm custo exorbitante, demasiado,

 

e lentes progressivas o custo é fantasista

— há que ficar com dor de dentes ou desdentado,

com mau aspecto, e apalpar com curta vista.

 

 

 

(Poema meu.)

 

 

 

                                                                                                        Mírtilo

 

 

 

 

publicado por Mírtilo MR às 22:18

O/a anónimo do costume. De verdade identificado, pelo senhor do Lago.

Pois bem. Óbvio, este saber do "povo". Mesmo assim, nunca será demais ir sendo relembrado.

Uma achega quer deixo, talvez para completar, timidamente, este raciocínio:

O governo é CEGO mas tem dentes!

... e ainda bem que os tem, porque dar-nos-á sempre a oportunidade de os enviar ao dentista numa oportunidade oportuna.

Porque como diz e muito bem, não são os parcos recursos, que alimentarão essa elite. Elite?! Eu disse elite?! Deve ser devido ao valores incomportáveis.

Boa Noite Senhor Do Lago!

(a iletrada)
Anónimo a 24 de Junho de 2009 às 23:01

Anónima (ou Iletrada, como se auto-intitula):

Por que motivo não escreve de forma mais compreensível, menos misteriosa ou menos atabalhoada? E por que deixou, durante algum tempo, pouco, de visitar este blogue? Esteve de férias, ou ausente? Ou será que sentiu vontade de vir de novo ... à pesca ao «Lago»? Olhe que aqui o «peixe« pede, não posso dizer exige, que se saiba pescar, isto é, que se seja compreensivo e esclarecido, ainda que crítico, e, digamos também, que, se possível, se identifique, nem que seja com um pseudónimo. E olhe que há pseudónimos bonitos, de insectos, flores, pedras ...
Bom dia para si.

Mírtilo
Mírtilo MR a 25 de Junho de 2009 às 12:45

Mírtilo ! Nada mais real nas palavras aqui descritas, mas é isto que actualmente se passa na nossa sociedade, porque há um tempo para cá se tentou engordar as bolsas dos ricos para manter o status , das marcas e das elites. Como eu outros tanto caminham para a reforma, mas será para continuar a contar os tostões, e não os milhões ) dramático, que há crise tenho consciência, mas que não seja sempre o mais pobre a pagar para o rico.
Beijinho e tudo de bom Lisa
maripossa a 25 de Junho de 2009 às 00:03

Lisa (Maripossa):

O meu agradecimento pela visita ao meu blogue e pelas palavras que deixou, concordantes com as minhas. Na verdade, é como a Lisa diz e como se vê por aí, por todo o País, cada vez mais dificuldade para quem é pobre ou para quem tem perdido poder de compra, sendo em contrapartida cada vez melhor para quem é rico ou tem rendimentos exagerados. Em resumo: os pobres estão cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos. E será muito difícil inverter isto, pois os governos têm estado e continuam a estar virados para o neoliberalismo económico, tipo moderno de política económica que tenta fazer, em muitos aspectos, voltar atrás as normas ou leis do trabalho no sentido de os trabalhadores terem menos direitos e ficarem mais desprotegidos, para que tenham de aceitar todo e qualquer trabalho a qualquer preço, dizendo a classe patronal e os governos que assim tem de ser para que haja competitividade no mercado.
Enfim, veremos onde vai isto dar, mas já se vai vendo que vai dando cada vez mais criminalidade.

Um beijinho para si, Lisa.
Mírtilo

Boa noite, hoje um dos seus poemas parece que foi feito para mim, é que eu fui comprar umas lentes e quando as paguei, fiquei a ver muito pouco
"Dinheiro na carteira"é um escândalo com os salários tão baixos e a saúde estar tão cara, quem é que pode pagar quase quinhentos euros por dois pedaços de vidro, e não é "luxo" é necessidade , é um ordenado de um mês, para quem ganhar isso.
Até amanhã

Amigo Mírtilo

Este é o meu terceiro comentário, espero que te leve a mensagem e não se perca como os os outros. Hoje apenas para te dar o meu abraço, e desejar-te um bom fim de semana, com tudo de bom e que usufruas.

Beijo
natalia

Amiga Natália:

Muito agradecido pela sua atenção demonstrada nas suas visitas ao meu crítico blogue, neste caso ao artigo «Milhões e tostões». Já vi que me visitou três vezes, mas respondo-lhe aqui, na última vez que me visitou, em que a Natália, por engano, inseriu o seu comentário como resposta ao de Linhas e Letras. Acontece.
Estive, por força das circunstâncias, uns dias sem poder mexer na computadora maquineta, mas aqui estou de volta, até ver.
Já irei, daqui a pouco,visitar o seu blogue e retribuir parcialmente a atenção que a trouxe até aqui por três vezes.
O meu blogue já tem mais um «post».

Desejo-lhe igualmente bom fim-de-semana e também retribuo um beijinho.

Mírtilo
Mírtilo MR a 3 de Julho de 2009 às 20:01

Amigo Mírtilo !

Nesta vida cheia de contraste
a pobreza é um desastre
numa via bem frequentada
quem é rico tem o mundo
o pobre só bate no fundo
e a boca mal alimentada

É triste mas é assim, sem tirar nem pôr. Falo com conhecimento de causa.
Um forte abraço.
manu a 26 de Junho de 2009 às 20:12

Amigo Manu:
Agradecido fico pela visita ao meu blogue e pelas palavras deixadas, lamentando o seu falar «com conhecimento de causa» a respeito do conteúdo do meu «post».

Um abraço.
Mírtilo
Mírtilo MR a 3 de Julho de 2009 às 19:46

Meu amigo

Como é triste assistir a toda esta corrupção, onde todos se desculpam uns aos outros, porque são todos amigos, fossem eles pobres e onde estariam? Este Mundo é dos espertos, sempre prontos a passar por cima de tudo e de todos. Mas o que ainda mais me entristece é que não há escolha possível, dado que são todos farinha do mesmo saco. No acto de votar a minha vontade é passar um risco, ou deixar algum desaforo escrito. Prevejo um futuro triste para quem trabalha, para não falar de quem nem trabalho já tem. Até quando esta preocupação? Todos os meus descendentes estão em maus lençóis e sabê-lo dá uma tristeza profunda.
Como se pode organizar uma Vida e criar os filhos?
Li com muita atenção o seu texto, bom como sempre, de onde levo sempre algum saber.

Um beijinho
e bom domingo
Natalia
rosafogo a 27 de Junho de 2009 às 20:21

Olá meu querido Amigo

Já comentei este seu post, há alguns dias atrás mas não me devo ter portado muito bem, dado que ele não aparece, mas não faz mal, nele lhe dizia o quanto gostei de ler o seu texto e os poemas tão expressivos da matéria em causa. Isto está difícil, amigo agora as reformas ainda têm que dar para ir ajudando a criar os netos, porque os empregos das ( filhas
no meu caso) é aquilo que muitos estão concerteza a passar é sempre uma incógnita, hoje recebem, mas o mês que vem como será?

Fique bem amigo
Um beijino
natalia
rosafogo a 3 de Julho de 2009 às 01:43



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