Todos temos um lugar, uma personalidade e um viver no caminho para a morte.
Sexta-feira, 17 de Julho de 2009

 

    

 

    

     Mértola, debruçada para o rio Guadiana de uma íngreme colina, reflecte-se nas suas águas e é uma vila do Baixo Alentejo muito pictórica e fotogénica, sobretudo  se vista de frente do outro lado do rio, ou de lado de um pouco a sul e deste modo captando, além da geral e singular beleza panorâmica da vila, também a singularidade da chamada Boca da Ribeira, ou seja, a foz da ribeira de Oeiras, junto da qual, para montante, o rio, além de apresentar a meio um pequeno e curioso ilhéu rochoso, outrora se alargava e se afundava muito, e aí se localizando o tão importante fluvial porto dos Romanos e dos Mouros e de outros povos que por ali andaram, com navais ligações intensas ao Mediterrâneo.

     Vale bem a pena uma visita a Mértola, por vários motivos, sobretudo pelos seus núcleos museológicos, provenientes de uma grande actividade arqueológica, e pela sua saborosa e típica gastronomia.

     A respeito do nome da ribeira de Oeiras, ele provirá certamente da palavra latina «aurarias» (acusativo plural de «auraria», que significava, o plural, «minas de ouro», ou, por extensão, certamente também locais onde apareciam pepitas ou partículas de ouro). E, na verdade, a poucos quilómetros a ocidente de Mértola, numa colina perto da referida ribeira e chamada cerro do Ouro, existiu outrora uma mina onde se dizia haver ou ter havido ouro, o que terá dado nome ao referido cerro. E algum desse ouro poderia até, em tempos muito remotos, ter sido arrastado para a ribeira e aí encontrado em mais de um local, ou ter existido até nas suas margens algum ouro em alguns pontos, o que, fosse como fosse, estará com grande probabilidade na origem do nome da ribeira de Oeiras, que na fase final corre por entre abruptas e rochosas margens, só se suavizando um pouco junto à foz.

     Talvez a mesma origem, a palavra latina «aurarias», se possa atribuir ao nome da sede de um concelho nos arredores de Lisboa, Oeiras, embora aí não haja, segundo creio, indício nominal algum, como há no caso da ribeira afluente do Guadiana e desaguante em Mértola.

     Hipótese de evolução linguística da palavra latina «aurarias» até chegar, em português, a «Oeiras» (grafando-se com maiúscula por ser topónimo):

 

     aurarias > ourarias (assimilação do a em o pelo u, como regra geral; ex.ºs: aurum > ouro, laurum > loureiro, paucum > pouco, etc.) > ourias (haplologia da sílaba ra, como em saudadoso > saudoso) > oerias (dissimilação do u em e) > oeiras (metátese do i).

 

     Por esta provável etimologia da palavra «Oeiras» se poderá dizer que o «O» deverá ser lido como «o» fechado,  não como «u»,  como fazem muitas pessoas, quase pretensiosamente.

 

    

 

           

 

              Guadiana e Oeiras

 

 

 

Aos pés de Mértola, vila que foi cidade,

importante lá na longínqua Antiguidade,

rio Guadiana a ribeira de Oeiras recebe,

casamento tranquilo se concebe,

 

 

ele de peito largo, histórico, notável,

ela de seio estreito, plebeia, ignorável,

hídricos corpos em manso amor se juntando,

rio sereno a boca da ribeira beijando,

 

 

fêmea água calma de colo tão elegante

e lábios de areia, ao Estio, morna ou escaldante,

que o macho ser potâmico calmo engravida

 

 

de fluviomarés que a incham cheia de vida,

e onde, a montante, tal prenhez não chegar,

vai à ribeira, fraco, o corpo estagnar.

 

 

 

 

(Poema meu.)

 

 

 

 

                                                                                                             Mírtilo

 

publicado por Mírtilo MR às 15:40
sinto-me:

Amigo Mírtilo ! Em relação ao seu texto introdutório, e sem menosprezar a informação dada, sempre minuciosa e didáctica, apenas direi que se nota, não só no seu mas também em outros textos do género, um grande amor pelas raízes telúricas. Esse tipo de paixão, para mim, faz todo o sentido, afinal, todos temos um lugar de onde provimos e ao qual estamos invariavelmente ligados.

Todos nascemos num lugar
que sendo nosso por direito
levamos grudado no peito
e para sempre vamos amar
pode ser a nossa naturalidade
ou apenas local de afinidade
que no coração vamos guardar

Forte abraço
manu a 18 de Julho de 2009 às 12:09

Manu:

Grato estou pela visita ao meu blogue e pelo comentário deixado, feito de palavras bem compreensivas, concordantes com o que penso, a respeito do tema ou do espírito do «post».

Todos temos um lugar,
uma personalidade,
um viver e um amar,
até à morte-verdade.

Um abraço.
Mírtilo
Mírtilo MR a 18 de Julho de 2009 às 22:55

Lindo poema!

Gosto do que escreve! Encontrei-o na poetapokdeusker e chamou a minha
atenção. escrevo poesia e sou amiga virtual (e não só) da Mª. João.

Felicidades,

Maria luísa
M.Luísa Adães a 19 de Julho de 2009 às 11:10

Maria Luísa:

Desculpe-me a liberdade de assim a tratar, por ser, creio, a primeira vez que a si me dirijo, tal como foi a primeira vez que recebi neste humilde blogue a sua por mim estimada visita.
Grato fiquei pela sua vinda aqui a este pouco decorado ou ostensivo blogue, porque não tenho grande espírito de decorador, e grato igualmente por gostar do que por aqui leu, dizendo eu, a tal respeito, que vou escrevendo algo que penso ser útil ou valer a pena dar a conhecer a quem me quiser ou puder visitar, sejam desabafos, com raiz dentro de mim ou fora, sejam objectivas críticas político-sociais, sejam recordações da minha terra na minha infância ou incentivos a visitá-la nos dias de hoje, tudo sempre acompanhado de um poema, mormente um soneto, que venha mais ou menos a propósito da parte introdutória do «post».
De novo os meus agradecimentos e que a felicidade a bafeje e lhe dê já uma boa semana.

Mírtilo

Mírtilo

Gostei da sua visita ao meu blogs.
Os meus poemas são, um pouco, diferentes do habitual.
Gosto de escrever em liberdade e não esqueço, as regras da poesia.
Tenho livros editados e pertenço à APE. Em 2010 tenho o aval e a ajuda
da C.M. de Almada para a edição do que tenho escrito na Net Sapo.
Adoro a Mª. João, os sonetos dela e a sua pessoa.
Gostei, também, da sua Mensagem ao nosso Mundo.
Adorei a forma como se expressa.
Não gostaria de o perder!

Felicidades e obrigada pela gentileza.

Maria Luísa

Sinto o odor só de ouvir falar
Bate-me no rosto a leve aragem
Sinto a água transparente a passar
Subtilmente em mim retenho a imagem
Quando a noite forja um novo dia
E a esperança que era velha se renova
O nascer do Sol trás à Terra energia
E a nossa Alma de sombria, fica como nova.

É assim que me sinto (feliz), quando encontro escritos sobre o lugar
que se guarda para sempre no coração, o lugar especial, que cada um
de nós tem como relíquia e que o Amigo Mírtilo tão bem faz esplender

Sempre adquiro alguns conhecimentos, quando o visito e também,
aprecio os seus sonetos.

rosafogo a 20 de Julho de 2009 às 11:17

Rosafogo (Natália):

Meu agradecimento para si pela visita que faz de vez em quando ao meu blogue, neste caso para apreciar e elogiar a terra (a minha) que se traz no coração, a terra de felizes espaços e tempos de infância e adolescência, porque depois, em adultos, tivemos de perder a inocência e apontar «armas» à conquista da vida, dos dinheiros, dos bens materiais, e ficámos sem o paraíso que tínhamos quando brincávamos, mesmo que pobremente, com liberdade, sem preocupação, mas sobretudo com inocência.

Meus dias de menino,
com meus jogos de saudade
e meu riso sincero,
levaram-mos,
levaram-mos,
despojaram-me
da inocência que a vida devia ter,
como se a manso e feliz vagabundo
roubassem o campo e o ar,
e atiraram-me à efervescência,
que enfraquece,
enfraquece,
e onde a poesia é luto
pela morte da esperança
e a carne é animal
que se vai desgastando
em deserto de tristeza.

Um beijinho, Natália.
Mírtilo
Mírtilo MR a 20 de Julho de 2009 às 19:52

Mas que magnífico artigo sobre a ribeira de Mértola! Essa homónima da minha terra que eu desconhecia totalmente... também devo confessar que não conheço a origem do nome... posso apenas conjecturar que também possa haver qualquer coisa relativa a ouro, nesta sede de Concelho. Talvez pelo Palácio do Marquês de Pombal... mas não. Talvez não seja, porque ele foi nomeado Conde de Oeiras e não sei se o Palácio já existia nessa altura... caramba, amigo! Que grande lacuna! Eu não conheço mesmo a génese do nome desta terra que tanto amo...
Um abraço
poetaporkedeusker a 20 de Julho de 2009 às 11:30

Poetaporkedeusker (Maria João):

Graças lhe dou pela sua visita a este singelo blogue, concretamente a este «post», em que falo de «Oeiras», sobretudo a minha, mas também dou um lamiré sobre a sua. E pode crer que, sendo a intenção falar da minha Oeiras, isto é, da ribeira de Oeiras, resolvi, por tabela, lembrando-me de si, referir, a propósito, não sem um certo ou grande sorriso interior, também a sua tão estimada Oeiras, que, vejo agora, como a Maria João aliás testemunha e lamenta, é de nominal génese de si desconhecida, o que eu também lamento, mas é normal muitíssima gente, para não dizer a maioria das pessoas, desconhecer a origem do nome de suas terras. Mas há-de procurar algo, o que puder, e penso que não será difícil, e verá que certamente o nome da sua meio tejense Oeiras poderá ou há-de provir (também) do latim «aurarias», nome relacionado, portanto, com ouro.
No seu comentário referiu-se ao meu artigo («post»), sobre a ribeira de Mértola, a que chamou «magnífico», mas não destrinçou o soneto da prosaica parte introdutória.

Um abraço.
Mírtilo

Mas eu leio sempre os sonetos, meu amigo! Peço desculpa. Esperava um comentário mais específico sobre o soneto e eu embrenhei-me nas origens do nome da minha terra... estão sempre a acontecer-me coisas destas, acredite. Sobretudo agora que o meu tempo online está muito mais limitado e eu tenho, na cx de correio do gmail, 3200 e-mails por abrir... e, ainda por cima, eu nem me atreveria a analisar um soneto tão clássico quanto esse! Tão cheio de uma sensualidade que eu também "sinto" quando penso na relação terra/mar ou terra/água em qualquer das formas com que ela se nos pode apresentar.
Um abraço grande!

Fui ao Google, ao site da Câmara Municipal de Oeiras, e não encontrei nada sobre o nome... sei que foi uma pesquisa rápida e apressada, mas esperava encontrar... agora tenho de sair. O Centro Paroquial fecha agora e corro o risco de cá ficar fechada!
Abraço!
poetaporkedeusker a 21 de Julho de 2009 às 17:49



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