Todos temos um lugar, uma personalidade e um viver no caminho para a morte.
Domingo, 21 de Junho de 2009

 

 

     Quando se é novo e se ama com esperança de família e na vida, se vem a foice do Destino, ou a Parca que o fio da vida corta, e leva, duplamente, o coração que  amava, fica-se como que atingido por toda a má sorte do mundo, que deixa na vida um demasiadamente sofrente morto-vivo revoltado contra a negra, temida e implacável Morte, restando então, certamente como melhor medida, mediante grande esforço que apazigúe o referido sentimento de revolta, olhar para Deus e pedir ajuda ... 

 

 

 

                                     Morreu-me ...

 

 

Um desmaio ... Como se morre! Ó Morte,

deixaste-me a miséria nesta dor!

Um desmaio ... Como um cruel vapor

que tudo me roubou. Oh, negra sorte! 

 

  

Ânimo, alegria, vontade forte,

esperança de ventre, tanto amor ...

Pior que jovem e humilde flor

desfeita por frio vendaval do norte.

 

 

Levaste-a, Morte, antropófaga Morte!

Foi tudo ilusão. Agora é só dor.

Há um mês ... Nada há que me conforte.

 

 

Ó justo Céu, dizei-me por favor

que ela está aí, para que eu suporte

até reaver um dia seu amor.

 

 

 

 

 

 

(Poema meu.)                                                                                                    

 

 

 

                                              Mírtilo                                           

 

publicado por Mírtilo MR às 16:47

Terça-feira, 16 de Junho de 2009

 

    

     Por me impressionar negativamente a maneira como muita gente semeia vírgulas pelos textos, digamos que a seu bel-prazer ou por pensar que procede bem, considerando esse o seu estilo, venho, se me é permitido, apresentar algumas normas gramaticais sobre virgulação que podem melhorar a maneira de virgular por parte das referidas pessoas, neste caso pessoas que visitem este meu blogue.

     As vírgulas não se podem usar a esmo, mas, sim, em pontos certos, nuns casos, e mais ou menos certos, noutros, como se fossem, digamos, sinais de trânsito linguístico para a fluência da linguagem e para evitar interpretações equívocas ou duplos sentidos. 

      Textos, incluindo poemas, sem vírgulas ou com vírgulas 

insuficientes (como parece ser moda para muita gente ao escrever poesia) tornam-se mais difíceis de compreender, ou interpretar. Uma vírgula a menos ou a mais pode  «matar» ou tornar dúbia uma frase  -  exemplo: Disparou a arma contra si avançava a multidão.

     Quem escreve sabe, em princípio, o que quer dizer, mas quem lê pode não saber.

     Vou tentar sintetizar algumas normas de virgulação, esperando que as pessoas não se aborreçam de as ler.

 

  1. Não  se  devem  usar,  por  ser  erro  crasso,  vírgulas  entre  o  sujeito  e o  predicado ou entre este e os seus complementos directo e indirecto, se estiverem imediatamente seguidos. (Exemplo: O João comprou um livro ao Joaquim.) Mas, se estiver alguma palavra ou expressão intercalada, deverá esta ficar entre vírgulas. (Exemplo: O João comprou, ontem, barato, um livro ao Joaquim.)
  2. O vocativo é sempre seguido de vírgula. [Exemplo: Ó João, (ou só: João,) vai ver o Joaquim.]
  3. Vão sempre entre vírgulas os apostos, ou continuados, cognomes, alcunhas. (Exemplo: João, humilde e inteligente, (ou: João, o Superaluno,; ou: João, o Trinca-Espinhas,) é o melhor aluno da escola.
  4. Usa-se a vírgula em geral antes de uma conjunção que inicia uma oração. (Exemplo: Devemos trabalhar, mas sem nos matarmos a trabalhar.) Se a conjunção estiver posposta, ou intercalada, vai entre vírgulas. (Exemplo: Trabalhou, recebeu, porém, pouca retribuição.)
  5. As expressões «isto é», «ou seja» e «quer dizer» vão entre vírgulas.
  6. Antes do pronome relativo «que» usa-se a vírgula se o antecedente a que ele se refere está suficientemente caracterizado. (Exemplo: O aluno mais velho da turma, que reclamou, saiu zangado. Ou: Deus, que é justo,  premiará quem faz o bem.) Mas, se a expressão introduzida por esse «que» é necessária para melhor caracterizar o seu antecedente, então não se deve usar vírgula antes do «que». (Exemplo: O aluno que reclamou saiu zangado.)
  7. Um particípio passado ou um gerúndio independentes que iniciem uma frase separam-se por vírgula da oração que se lhes segue, ou vão entre vírgulas se intercalados numa oração.  [Exemplos: Passado (ou: passando) muito tempo, a memória vai esquecendo. O João, curvando (ou: curvada) a cabeça, cumprimentou o professor.]  

 

     Em resumo, quando há palavras ou expressões acessórias intercaladas na estrutura, ou esqueleto, da frase, tem de se «saltar», para seguir a sequência da referida estrutura, de onde está uma vírgula, depois de fazer aí a pausa, para onde está a próxima, com outra pausa  -  por isso o seu uso  -,  para que não se perca a sequência do que é essencial na frase, a fim de evitar a dificuldade ou o erro de interpretação, ou a dupla interpretação. 

     É claro que há uma ou outra vírgula mais ou menos facultativa, dependendo, pelo menos em parte, de quem escreve. E, se as várias partes de uma frase ocupassem  a ordem sequencial, não seriam necessárias tantas vírgulas.

     (Na linguagem falada, quando é de improviso, poderão admitir-se, mais ou menos, transgressões às normas, mas, se se estiver a ler o que se diz, já não ficam bem as transgressões.)  

 

 

 

                                        Virgulação 

 

 

«Há chapéus para mulheres de palha

e cintos para homens de borracha.»

As vírgulas como cada um acha

são algo que muitas vezes mal calha.

 

A vírgulas devem ter sítio certo,

embora uma ou outra possa variar

e com o estilo de quem escreve jogar,

que não deve deixar o texto incerto,

 

dúbio ou com dupla interpretação.

Deve o texto fluir no essencial,

devendo ser certa a virgulação,

 

com o que é acessório ou adicional

a ter com vírgulas separação,

para o texto não se interpretar mal.

 

 

 

(Poema meu.)

 

 

 

 

                                                                                                                  Mírtilo

 

 

 

 

     

publicado por Mírtilo MR às 15:56

Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

 

 

    Hoje, dia 10 de Junho, é Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas.   

     Camões nasceu provavelmente em 1524 (ou 1525) e faleceu a 10 de Junho de 1580, sendo o seu lugar de nascimento disputado sobretudo entre Lisboa e Coimbra.

     Muito se disse e se pode dizer sobre Camões, para o bem e para o mal,  acabando, devido a certos factos da sua vida, por se tornar evidente o seu reconhecimento como alguém que sofreu muito e como tendo sido o maior poeta português de todos os tempos, sobretudo por ter escrito a obra máxima da poesia portuguesa, Os Lusíadas, obra épica que veio a ser o poema nacional por excelência, a narrar a História de Portugal enquanto decorre a viagem de Vasco da Gama à Índia, o descobrimento do caminho marítimo para a Índia, ou para todo o Oriente.

     Camões sofreu em combate, onde ficou sem o olho direito, sofreu socialmente, sofreu desamores, sofreu penas oficiais, como prisão, sofreu um naufrágio, sofreu a doença, sofreu a miséria ..., e só depois da primeira edição de Os Lusíadas, em 1572, a oito anos de falecer, é que oficialmente lhe foi reconhecido valor e concedida uma tença (espécie de pensão na altura) anual de 15 000 réis, que o tirou um pouco da miséria em que vivia, mas esta tença foi mais concedida pelos serviços militares por Camões prestados sobretudo na Índia do que por ter escrito Os Lusíadas, não lhe tendo sido paga com a regularidade necessária e sendo inferior a outras tenças concedidas então, não tendo, portanto, na devida conta o inestimável serviço que o poeta prestara à Pátria ao dar-lhe a obra Os Lusíadas.

     Os seus sonetos, de temas variados, demonstram muito da sua personalidade, das suas aventuras e desventuras, do que sofreu ... E como prova do que sofreu, refira-se o amaldiçoamento do seu dia de nascimento, como que o arrependimento de ter nascido, expresso no soneto «O dia em que eu nasci moura e pereça».

 

 

 

                            O dia em que eu nasci

                                  moura e pereça

 

 

O dia em que eu nasci moura e pereça,

não o queira jamais o tempo dar,

não torne mais ao mundo, e, se tornar,

eclipse nesse passo o Sol padeça.

 

A luz lhe falte, o sol se lhe escureça,

mostre o mundo sinais de se acabar,

nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,

a mãe ao próprio filho não conheça.

 

As pessoas pasmadas de ignorantes,

as lágrimas no rosto, a cor perdida,

cuidem que o mundo já se destruiu.

 

Ó gente temerosa, não te espantes,

que este dia deu ao mundo a vida

mais desgraçada que jamais se viu!

 

 

 http://lomba.blogs.sapo.pt/arquivo/2005_03.html

(Poema de Camões.)

 

 

 

 

                                                                                                                  Mírtilo  

 

 


Domingo, 07 de Junho de 2009

 

    

     Hoje, 7 de Junho, há eleições, ditas Europeias, para o Parlamento Europeu, isto é, para eleger, de entre os partidos políticos, os representantes de Portugal no Parlamento Europeu. E é certo e sabido, infelizmente, não só porque as sondagens ou previsões para isso apontam e porque assim costuma ser, que o abstencionismo vai ser muito elevado, talvez o mais elevado de sempre.

     Uma grande parte do povo, para não dizer a maior parte, e talvez não fosse exagero, desconhece a utilidade prática destas eleições para o País, quase nem sabendo o que é o Parlamento Europeu. Além disso, tem  nascido no cidadão comum, em geral, grande despeito e descrédito nos políticos, devido à má acção política da maior parte deles. Para pior,  esta campanha eleitoral nada ou muito pouco esclareceu os eleitores acerca destas eleições e dos seus objectivos, tendo os candidatos, em geral, andado País fora com as respectivas comitivas, durante duas semanas, a atacar-se verbalmente e como se de eleições para a Assembleia da República se tratasse, a esbanjar dinheiros e dinheiros que o Erário Público pagará. Tudo isto junto faz que uma grande parte do povo se alheie destas eleições.

     Hoje, domingo de manhã, a propósito destas eleições e relacionado com o que acabo de escrever, senti um soneto algo a agitar-se dentro de mim, que tentei pôr cá fora, no papel.

 

 

 

                                     Dia de eleições

 

 

Hoje é domingo e é dia de eleições,

para o Parlamento Europeu se vota,

muito é o desinteresse que se nota

e a que apontam sondagens, previsões;

 

e a altíssima taxa de abstenções,

que o despeito aos políticos denota,

qual triste fado ou malfadada rota,

por duas alternadas governações,

 

é devida à popular incultura

e ao maldizer, com enorme aparato,

que pela campanha eleitoral perdura,

 

querendo ganhar em verbal desacato,

sem esclarecer mente culta ou obscura

— mais que o da bola, um feio campeonato.

 

 

 

 

(Poema meu.)

 

 

 

 

                                                                                                                                              

 

                                                                                                             Mírtilo

 

    

publicado por Mírtilo MR às 18:34

Quinta-feira, 04 de Junho de 2009

 

 

 

 

                                                                                                                                             

Hipótese de reconstituição da antiga cidade de Myrtilis, feita por desenho, com  sua defensiva muralha a toda a volta, tendo no alto o Castelo e à sua direita o Fórum, de então.

 

 

                                                      

 

Pormenor da Torre do Rio, para controlo da navegação e da água, a ligar a muralha ao rio.

 

 

 

 

(Ambas as ilustrações são de autoria de Leonel Borrela, in publicação do Campo Arqueológico de Mértola.) 

      

     A cinquenta quilómetros a sul da cidade de Beja, capital do Baixo Alentejo, fica a vila de Mértola, cujo nome proveio de Mirtolah, nome que os Árabes lhe davam, mas a povoação já vinha de há muito, muito, antes, chamando-lhe os Romanos Myrtilis, em cuja ocupação foi cidade importantíssima, já se cunhando ali moeda no século I antes de Cristo, privilégio que  Roma só concedia a cidades muito importantes, com seu porto fluvial no rio Guadiana, então de grande tráfego comercial e por onde se escoavam sobretudo produtos agrícolas e minerais de toda uma vasta zona que viria a ser o Baixo Alentejo e parte do Alto,  zona a integrar a romana Lusitânia, destacando-se, como produtos levados, cobre, prata e ouro das minas de São Domingos, no próprio concelho de Mértola, e das minas de Aljustrel, cuja zona mineira então se chamava Vipasca e distava de Myrtilis talvez quase uma centena de quilómetros,  em navegação até à foz e pouco depois pelo Mediterrâneo adentro, onde floresceram e donde se expandiram então as mais importantes civilizações, considerando-se praticamente a então cidade de Myrtilis como o mais ocidental porto do Mediterrâneo.

     A origem do nome de Myrtilis, no entanto, não é consensual, está envolta em certo desconhecimento, isto é, não é de todo certo que seja de origem latina, e neste caso poderá provir da língua fenícia.

     A origem do próprio povoado inicial, primevo, é também algo brumosa, impossível de  fixar sem qualquer dúvida, pois por lá passaram, antes dos Romanos, outros povos,  Fenícios, Gregos, Cartagineses, e antes destes o povo cinésio, também conhecido por povo cúneo, tendo também andado não muito longe dali povo celta e povo túrdulo.

     Actualmente, vale bem a pena uma visita a Mértola, pois, além de certos eventos de que se destaca anualmente, pela sua singularidade, o Festival Islâmico, poderão ser visitados vários núcleos museológicos organizados com base numa intensa e esforçada actividade arqueológica desenvolvida desde a década de oitenta, que lhe mereceram o bom e justo epíteto de Vila-Museu, assim como poderá ser saboreada a sua importante gastronomia regional, de que se salientam pratos de caça e de lampreia.

 

 

 

                                          Teu nome Myrtilis

 

 

Na sombra do sem fundo abismo temporal

perde-se tua origem e designação,

a origem envolve-a quiçá mor escuridão,

desde o primevo povoado que houve no local,

 

e, brumoso também, a ver-se menos mal,

teu nome será de menor especulação,

talvez de Myrtiri, fenícia expressão,

Nova Tiro a significar, como um ideal,

 

ou de Myrtilus, filho de Mercúrio, a provir,

Mercúrio ou Hermes, e de latim ou grego a resultar,
ou do latim myrtus, mas do grego já a vir,

 

que em português mirto ou murta veio significar,

planta talvez por ali muito a existir.

E após moura Mirtolah, Mértola veio a dar.

 

 

 

 

(Poema meu.)

 

 

 

                                                                                                                Mírtilo                  

 

 

 

 

 


Segunda-feira, 01 de Junho de 2009

 

 

    

 

 Está Vindo!Criança de Capena, Itália, fuma durante a festa de Santo Antônio

 

 

 

     As crianças são os adultos de amanhã, mas, se lhes não dermos, além de formação escolar e cultural, boa formação moral, elas terão um mundo tão mau ou pior do que este que hoje nós adultos temos, assim como tantas, tantas, delas o têm também.

     Transcrevo, a propósito de crianças, um excerto de um poema meu, feito há muitos anos mas que ainda se apresenta muito actualizado.

 

 

 

 

                                        ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...

Até as crianças, inocentes crianças,

que riam sãs pelos pátios das escolas,

pelos verdes jardins da cidade,

ou pelos terreiros e campos da aldeia,

e eram como um livro pequenino

onde os bons pais inscreviam seus sangues,

até elas, pobres crianças,

as transformaram:

já não riem nem brincam despreocupadas,

já não descobrem por necessidade ou curiosidade

segredos e belezas da Natureza,

são crianças que as mães não aleitam

e os pais não ensinam,

são estudantes forçados ou condescendentes

que os pais teimam em oferecer

aos tentáculos do progresso urbano

em troca de um fofo e dourado futuro

para os filhos da sua ambição,

são crianças e crianças revoltadas

com armas de vício e autoridade prematura ...  

 

 

 

 

(Poema meu.)

 

 

 

 

                                                                                                      Mírtilo

                                                                            

  

 

 

 

 

 

 

                     

   

 

 

 

 

                                                        

 

publicado por Mírtilo MR às 16:04

Domingo, 31 de Maio de 2009

 

     Muito ou quase tudo se pode dizer da poesia: das suas causas, dos seus efeitos, da sua profundidade de sensibilidade, dos seus estilos de forma e de conteúdo ... Diga-se, porém, que a poesia pode ser (é) uma arte que dignifica o espírito,  valoriza-o, estática ou dinamicamente, alimenta-o («A poesia é para [o espírito] comer», dizia o poeta Ary dos Santos),  fá-lo sofrer, fá-lo amar ... Poder-se-ia dizer também que, se os governos não fossem em geral só constituídos por tecnocratas, economocratas, nomocratas e plutocratas e tivessem também poetas, talvez a política fosse algo melhor, mais sensível sobretudo às pessoas mais necessitadas ou mais sofredoras, mais sentimentalizada, mais pacífica, mais gratificante para o espírito ... E o espírito é atreito a dúvidas que a política, pelo que é e como está, provoca ou agrava, fazendo diminuir a esperança de os homens terem um dia um mundo melhor, para já não dizer de todo justo, um mundo com mais sensibilidade e amor pelos outros, com liberdade de exprimir, sem qualquer receio, político ou civil, os seus íntimos ou sociais problemas, como se com qualquer pessoa se falasse para um verdadeiro amigo. Mas os governos em geral, além de não gostarem de incluir poetas, nem gostam de os ouvir, talvez até nem gostem que eles existam, e talvez também por isso os poetas não gostam de ser governantes, nem tal reivindicam, como se fosse algo que os manchasse, que lhes roubasse a alma, preferindo continuar com ela a sofrer ou com dúvidas sobre a vida e o mundo. 

 

 

 

                   http://coruche.blogs.sapo.pt/arquivo/662625.html                                

                                              Dúvida

 

 

Peço aos dias, como esmola,

que me indiquem um caminho,

que me descubram a mim,

que digam como hei-de ser ...

Mas os dias passam por mim ...

Não têm pena de me deixar

na dúvida do que é a vida.

 

Há dias que me mostram Cristo

e segredam-me que sofra pelo bem,

que seja humilde e paciente

e terei cheio o coração

daquela felicidade

que só sentem os simples agradecidos;

outros dias dizem-me, a zombar,

que seja mármore e prazer

e mostram-me o prémio, sensuais,

dum monte de dinheiro

e dum quarto fofo e morno

com corpos quentes e nus de mulheres,

e viagens, e praias, liberdade ...;

outros dias me aconselham, como amigos,

que me vista de indiferença

e mostram-me o prémio, calmamente,

duma vida sossegada e secreta,

duma vida sem tesouros nem misérias.

 

E eu enrosco-me nas noites

como um cão sem dono e doente,

de sono fraco e intermitente ...

Asfixia-me a dúvida,

chora-me o desespero,

e os dias continuam fugazes,

não me dizem ao certo como hei-de ser ...

Ah, dúvida, deserto da vida!

Eterna variedade dos homens!

Eterna ignorância dos homens!

 

Revoltar-me? Contra quem?

Contra a dúvida? Contra o homem?

Contra mim?

Ah, dúvida, dúvida!

És como um mau alimento

que separa, dispersa os homens

em «raças» diferentes,

mas que a mim reparte em três

sem chegar a ser nenhum. 

 

 

 

(Poema meu.)

 

 

 

 

                                                                

                                                                                                     Mírtilo

 

publicado por Mírtilo MR às 22:06

Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

 

 

     A poesia sempre me tomou muito, tanto positivamente como negativamente. No aspecto positivo, servindo-me de tão bom alimento para a alma  — dando-me então prazer, um prazer que parece não ser deste mundo, ou das pessoas em geral —  e permitindo-me conhecê-la melhor, embora sem o conseguir de todo, dados os labirintos e recônditos cantos e recantos que a alma possui ou que parece inventar. No aspecto negativo, trazendo-me tantas vezes, para não dizer quase sempre  — devido ao tipo de poesia que fazia, e ainda faço —,  além de perda de tempo relativamente aos aspectos materialistas das vidas de todos nós, trazendo-me, dizia, tristeza, angústia, desespero, revolta, desistência, dor, doença, poderei até dizer morte ... , e acrescentar, a este respeito de morte, como nota  do máximo de intimidade em mim, que, em certo aspecto, morri há muito, ainda muito jovem ... Mas, ainda assim, acho que foi bom, muito bom, ter feito poeticamente o que fiz.

     Os meus poemas são geralmente extensos e dramáticos, por vezes raiando algo de trágico, estando de harmonia com a sensibilidade e a imaginação que me estremecem o âmago e que vão por aí à minha volta, ou mais além, ou por esse mundo ...

     Desta feita, porém, postarei aqui um poema que não é extenso.

 

 

 

                                                       Dor

 

 

Meu corpo tem dores de mártir

e grilhos de escravo eterno,

tem espuma de cavalo fustigado

e sangue de homem decepado;

foi fonte, luz, esperança,

sonho de aldeia e de cidade;

depois foi muralha encolhida

onde chocaram balas de realidade

e correram os prantos quentes 

do destroçar das ilusões.

 

Tenho no sangue o tempo

que o tumultua e enche

de cataratas de desespero,

nos miolos tenho um vulcão

que me quebra a fronte

em cefalalgias de loucura;

com força e ânsia correria

para longe deste fracasso,

ou dormiria até acordar outro,

sem memória ou sem conhecer o mundo.

 

 

 

(Poema meu.)

 

 

 

 

 

                                                                                                                      Mírtilo 

publicado por Mírtilo MR às 16:24

Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

 

    

     Os Portugueses vão de novo este ano ser chamados a eleições:  para as Europeias, isto é, para o Parlamento Europeu;  para as Legislativas, ou seja, para a Assembleia da República (que indirectamente também servem para formar Governo, pelo partido mais votado); e para as Autárquicas, isto é, para o Poder Local.

     A campanha para  as Europeias já começou, já por aí anda, como de costume a gastar-se fortunas, milhões e milhões, a fazer-se promessas e mais promessas que depois não se cumprem ou quando muito só se cumprem minimamente, sendo claro que quem falta mais à verdade, ou totalmente à verdade, são os partidos que são sempre mais elegíveis, os dois maiores. É claro que para as Europeias, as da decorrente campanha eleitoral, o problema das promessas não impressiona nem afecta muito os Portugueses em geral, ou uma grande parte deles, porque são eleições que, ao longo do tempo em que já existem, nunca lhes disseram grande coisa, como se comprova através da sempre elevada taxa de abstenção.

     Quando vierem as Legislativas, aí, sim, já os Portugueses em geral se impressionarão muito mais com as muitíssimo mais elevadas verbas gastas em campanha eleitoral e com as também mais numerosas e mais vastas promessas que, como é usual, não irão ser cumpridas, totalmente ou parcialmente, por quem vencer essas eleições. Quase sempre tem sido assim, em maior ou menor escala, o que tem feito perder ao povo em geral o elevado conceito do voto, dito em democracia, ou até a vontade de ir votar, por se achar, ainda que se queira ter alguma esperança, que vai ser sempre o mesmo tipo de governação, já que os dois partidos que se revezam no Poder apresentam ou têm políticas muito idênticas, embora o que calha a ficar na Oposição se queira fazer e argumente ser diferente, para melhor, claro. É que, actualmente, são dois partidos que, embora se digam e tivessem sido de tendências políticas razoavelmente diferentes, acabaram por ficar praticamente iguais ou semelhantes.

     Quanto às Autárquicas, que são eleições especificamente para o Poder Local, têm a esse nível a sua grande importância e são encaradas sobretudo com a finalidade de desenvolvimento local para o bem das respectivas populações. É claro que também têm a sua quota-parte de promessas que não serão cumpridas.

     Sem dúvida que as Legislativas são em geral consideradas as mais importantes, por servirem para legislar a nível nacional e para formar Governo para o País, e é nestas eleições que o povo em geral deposita ainda ou desejaria depositar razoável esperança para a melhoria das suas vidas, esperança essa que tem vindo, ao longo dos trinta e cinco anos de democracia (de voto), sobretudo mais recentemente, a baixar, a esmorecer, por serem tantas as desilusões sofridas, mormente pelos mais necessitados, e juntamente com a perda de esperança se foi perdendo  algum ou muito apreço ao voto democrático, às instituições democráticas e aos políticos em geral ...

 

 

 

                                                        Democracia

 

 

25 de Abril. Ávidos vivas à democracia.

O povo ia ser livre de todo finalmente,

graças à coragem e ao esforço superingente

dum punhado de militares, da noite para o dia.

 

Não mais as mordaças e o exílio haveria,

não mais a fome, a injustiça, a inculta mente,

era a educação, paz, pão, casa, a toda a gente,

em livres eleições o voto se outorgaria.

 

Hoje, trinta e cinco anos de frias desilusões,

ao livre voto se foi perdendo respeito,

se perdeu apreço e fé nas instituições,

 

se nutre por políticos enorme despeito

— está corrupta a democracia e com restrições,

qual ansiado mas muito enganoso conceito.

 

 

 

 

(Poema meu.)

 

 

 

 

 

 

                                                                                                            Mírtilo

 

 

 

 

 

 

publicado por Mírtilo MR às 16:03

Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

 

 

     Em Portugal, assim como por outros países da Europa, vão terminando os campeonatos de futebol. Vai-se aproximando uma paragem nas competições deste desporto, «desporto-rei», como vulgarmente é chamado, até pelos relatores e comentadores desportivos, querendo com isso significar que é ao futebol, de entre todos os desportos, que se dá inequivocamente muito mais atenção e meios, pode dizer-se que não há comparação possível,  e que,  certamente também por isso, é o futebol que arrasta, também incomparavelmente, muitíssimo mais as multidões.

     Sem qualquer sombra de dúvida, o futebol sempre foi de há muito o grande desporto do povo em geral, quer a nível  do escalão superior, isto é, da primeira divisão nacional, quer a nível regional e local, isto é, em todos os outros escalões ou divisões, ou seja, regional e localmente o povo tinha o clube da sua terra ou de terra próxima e cujos jogos via e com os quais vibrava familiarmente,  e a nível de primeira divisão tinha também o seu clube de adepto, ao longe, quase qual heróico ou patriótico clube superior. E dizia-se, isto é, dizia sobretudo a Oposição ao Regime do Estado Novo, incluindo muita gente da classe culta de então, que com futebol (e com vinho) o povo estava abstraído dos problemas políticos e sociais que o afligiam e não se cultivaria tanto, sendo por isso mais remota a hipótese de sublevações populares ou de reivindicações, pois um povo inculto, mergulhado em obscurantismo, seria sempre mais fraco e mais fácil de conter.

     A seguir ao 25 de Abril de 1974, no auge do espírito progressista e do combate ao velho estado das coisas, muito se disse que o anterior Regime tinha o povo alienado pelo futebol e tentou-se modificar isso, tirando a esse desporto alguma da idolatria que o povo lhe dedicava. E conseguiu-se minorar um pouco essa admiração exagerada pelo futebol, sobretudo o da primeira divisão nacional. Para algum tempo depois, não muito, em reviravolta ainda mais engrandecedora ou alienadora do futebol, até as elites sociais, incluindo políticos e governantes, incompreensivelmente, inesperadamente, se voltarem mais para o futebol, até que se começou a compreender o porquê disto: era uma certa táctica de caça aos votos para quando viessem eleições e também uma certa prática promíscua de política, capital e futebol que se poderia traduzir em dinheiro, em lucro.

     E assim se chegou aos problemas que ultimamente se despoletaram relativamente à promiscuidade de futebol, política e capital, com muitos casos que chegam ou não a tribunal mas que vão regra geral acabando a contento dos réus ou dos arguidos.

     E será admissível que os futebolistas,  ainda que os melhores, em geral com fracas habilitações literárias ou culturais e sem qualquer curso específico ou outro, apenas repetida prática, aufiram fabulosas fortunas em comparação com profissionais de nível elevado e, muito mais chocantemente ainda, em comparação com  os tão parcos salários dos trabalhadores em geral?

 

 

 

                                                  Futebol

 

 

Não é preciso, para ser bom futebolista,

curso académico ou profissional possuir,

nem de grande intelecto ou cultura usufruir,

basta ter jeito e sobretudo que a sorte assista,

 

mas, em curto horário de trabalho a cumprir,

o ganho é imensamente mais que cientista,

médico, advogado, engenheiro, governante, artista.

E os clubes de economias quase a falir,

 

muitos sem os impostos ao Estado pagar,

mas vendem, quais objectos, jogadores por milhões,

talvez recebam capital sujo a branquear.

 

E nos estádios claques em selvagens acções,

árbitros que, a errar, estragam jogos, sem pena.

Futebol é poder, intimida, corrompe, aliena.

 

 

 

 

 

(Poema meu.)

 

 

 

 

 

                                                                                                      Mírtilo

 

 

 

                                                                             

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

             

 

 

 

                                                

   

 

 

                                                                    

      

publicado por Mírtilo MR às 16:23


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