Todos temos um lugar, uma personalidade e um viver no caminho para a morte.
Domingo, 31 de Maio de 2009

 

     Muito ou quase tudo se pode dizer da poesia: das suas causas, dos seus efeitos, da sua profundidade de sensibilidade, dos seus estilos de forma e de conteúdo ... Diga-se, porém, que a poesia pode ser (é) uma arte que dignifica o espírito,  valoriza-o, estática ou dinamicamente, alimenta-o («A poesia é para [o espírito] comer», dizia o poeta Ary dos Santos),  fá-lo sofrer, fá-lo amar ... Poder-se-ia dizer também que, se os governos não fossem em geral só constituídos por tecnocratas, economocratas, nomocratas e plutocratas e tivessem também poetas, talvez a política fosse algo melhor, mais sensível sobretudo às pessoas mais necessitadas ou mais sofredoras, mais sentimentalizada, mais pacífica, mais gratificante para o espírito ... E o espírito é atreito a dúvidas que a política, pelo que é e como está, provoca ou agrava, fazendo diminuir a esperança de os homens terem um dia um mundo melhor, para já não dizer de todo justo, um mundo com mais sensibilidade e amor pelos outros, com liberdade de exprimir, sem qualquer receio, político ou civil, os seus íntimos ou sociais problemas, como se com qualquer pessoa se falasse para um verdadeiro amigo. Mas os governos em geral, além de não gostarem de incluir poetas, nem gostam de os ouvir, talvez até nem gostem que eles existam, e talvez também por isso os poetas não gostam de ser governantes, nem tal reivindicam, como se fosse algo que os manchasse, que lhes roubasse a alma, preferindo continuar com ela a sofrer ou com dúvidas sobre a vida e o mundo. 

 

 

 

                   http://coruche.blogs.sapo.pt/arquivo/662625.html                                

                                              Dúvida

 

 

Peço aos dias, como esmola,

que me indiquem um caminho,

que me descubram a mim,

que digam como hei-de ser ...

Mas os dias passam por mim ...

Não têm pena de me deixar

na dúvida do que é a vida.

 

Há dias que me mostram Cristo

e segredam-me que sofra pelo bem,

que seja humilde e paciente

e terei cheio o coração

daquela felicidade

que só sentem os simples agradecidos;

outros dias dizem-me, a zombar,

que seja mármore e prazer

e mostram-me o prémio, sensuais,

dum monte de dinheiro

e dum quarto fofo e morno

com corpos quentes e nus de mulheres,

e viagens, e praias, liberdade ...;

outros dias me aconselham, como amigos,

que me vista de indiferença

e mostram-me o prémio, calmamente,

duma vida sossegada e secreta,

duma vida sem tesouros nem misérias.

 

E eu enrosco-me nas noites

como um cão sem dono e doente,

de sono fraco e intermitente ...

Asfixia-me a dúvida,

chora-me o desespero,

e os dias continuam fugazes,

não me dizem ao certo como hei-de ser ...

Ah, dúvida, deserto da vida!

Eterna variedade dos homens!

Eterna ignorância dos homens!

 

Revoltar-me? Contra quem?

Contra a dúvida? Contra o homem?

Contra mim?

Ah, dúvida, dúvida!

És como um mau alimento

que separa, dispersa os homens

em «raças» diferentes,

mas que a mim reparte em três

sem chegar a ser nenhum. 

 

 

 

(Poema meu.)

 

 

 

 

                                                                

                                                                                                     Mírtilo

 

publicado por Mírtilo MR às 22:06

Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

 

 

     A poesia sempre me tomou muito, tanto positivamente como negativamente. No aspecto positivo, servindo-me de tão bom alimento para a alma  — dando-me então prazer, um prazer que parece não ser deste mundo, ou das pessoas em geral —  e permitindo-me conhecê-la melhor, embora sem o conseguir de todo, dados os labirintos e recônditos cantos e recantos que a alma possui ou que parece inventar. No aspecto negativo, trazendo-me tantas vezes, para não dizer quase sempre  — devido ao tipo de poesia que fazia, e ainda faço —,  além de perda de tempo relativamente aos aspectos materialistas das vidas de todos nós, trazendo-me, dizia, tristeza, angústia, desespero, revolta, desistência, dor, doença, poderei até dizer morte ... , e acrescentar, a este respeito de morte, como nota  do máximo de intimidade em mim, que, em certo aspecto, morri há muito, ainda muito jovem ... Mas, ainda assim, acho que foi bom, muito bom, ter feito poeticamente o que fiz.

     Os meus poemas são geralmente extensos e dramáticos, por vezes raiando algo de trágico, estando de harmonia com a sensibilidade e a imaginação que me estremecem o âmago e que vão por aí à minha volta, ou mais além, ou por esse mundo ...

     Desta feita, porém, postarei aqui um poema que não é extenso.

 

 

 

                                                       Dor

 

 

Meu corpo tem dores de mártir

e grilhos de escravo eterno,

tem espuma de cavalo fustigado

e sangue de homem decepado;

foi fonte, luz, esperança,

sonho de aldeia e de cidade;

depois foi muralha encolhida

onde chocaram balas de realidade

e correram os prantos quentes 

do destroçar das ilusões.

 

Tenho no sangue o tempo

que o tumultua e enche

de cataratas de desespero,

nos miolos tenho um vulcão

que me quebra a fronte

em cefalalgias de loucura;

com força e ânsia correria

para longe deste fracasso,

ou dormiria até acordar outro,

sem memória ou sem conhecer o mundo.

 

 

 

(Poema meu.)

 

 

 

 

 

                                                                                                                      Mírtilo 

publicado por Mírtilo MR às 16:24


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